‘Salles tornou-se um problema’, diz coautor de plano ambiental de Bolsonaro

Ministro do Meio Ambiente perdeu a interlocução e não sabe trabalhar em equipe, afirma o advogado Antonio Fernando Pinheiro Pedro.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quinta-feira, 16 de julho de 2020, 13h57.

A cada dia que passa, cresce cada vez mais o coro pela exoneração do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, cujo cargo ocupa desde o início da gestão do presidente Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019.

A permanência de Salles no governo tem sido constantemente criticada desde o ano passado, mas as pressões por sua saída se intensificaram com a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, em que ele destacou a crise da pandemia da Covid-19, na qual está concentrada a atenção da sociedade e da imprensa, como uma oportunidade a ser aproveitada para “passar a boiada”: mudar regras com menor risco de o governo sofrer críticas e ações judiciais.

Depois de se expandir amplamente em diversos setores da sociedade, as pressões contra a permanência do ministro foram reforçadas por manifestações de empresários e investidores do Brasil e do exterior não só contra o aumento de queimadas e desmatamentos na Amazônia, mas também contra a política ambiental do governo Bolsonaro. Com isso, as pressões se alastraram para dentro do próprio governo.

 

Desorganização crescente

Questionado sobre se existe uma pressão organizada para a demissão do ministro, o advogado respondeu que sim, e que “ela se deve à crescente desorganização ocorrente hoje na pasta do meio ambiente”. E acrescentou: “portanto, não é apenas uma ação organizada, mas sim uma reação à desorganização crescente que ocorre hoje na gestão ambiental federal no Brasil”.

Ontem, quarta-feira (15), severas críticas ao ministro vieram justamente de um companheiro seu nos preparativos para o início do governo Bolsonaro: o advogado e consultor ambiental Antonio Fernando Pinheiro Pedro, que participou com Salles na equipe de transição que no final de 2018 assessorou o então presidente eleito Jair Bolsonaro na área de Meio Ambiente. (Já comentei sobre essa atuação deles em “Já estava nos planos de Salles desde o ano passado ‘reformatar o Conama’”,27/03/2019.)

Em entrevista ontem à Rádio Sputnik, Pinheiro Pedro comentou as origens e o alcance das pressões para a substituição do ministro (“Entrevista com Antonio Fernando Pinheiro Pedro”).

O advogado prosseguiu, afirmando:

Ricardo Salles tornou-se um problema, na medida em que perdeu a interlocução. Ele perdeu a interlocução pelo governo com o público externo à administração, seja com os stakeholders da gestão ambiental, quais sejam – a sociedade civil organizada, grupos econômicos com atividades de impacto ambiental e as comunidades impactadas. E necessário que um gestor de meio ambiente mantenha interlocução permanente com esses setores, até mesmo para poder resolver os conflitos. E essa interlocução foi perdida. Ela começou muito difícil no ano passado, no início da gestão do governo Bolsonaro, mas ela foi se esgarçando e se esgarçou de vez no final do ano, quando começaram a ocorrer grandes eventos envolvendo impactos ambientais demandando a gestão do ministro, e essa gestão ficou muito aquém do que era necessário para resolver essas demandas. Então, ele perdeu a interlocução. Não é mais um agente capaz de resolver conflitos em nome da gestão na esfera federal.

Direto da Ciência solicitou ao ministro Ricardo Salles, por meio de mensagem à sua assessoria de imprensa, uma posição sobre as declarações do advogado e consultor ambiental Antonio Fernando Pinheiro Pedro. Se houver resposta, esta reportagem será atualizada com ela.

Veja transcrição da entrevista aqui.

Na imagem acima, o advogado e consultor ambiental Antonio Fernando Pinheiro Pedro (dir.), e Ricardo Salles, em reunião da equipe de transição que no final de 2018 assessorou o então presidente eleito Jair Bolsonaro na área de Meio Ambiente. Foto: The Eagle View/reprodução.

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2 Comentários

  1. Ivan Carlos Maglio said:

    O Plano não era assim tão distante do que o anti ministro Salles realizou como operador. Ele foi eficiente para cumprir o plano! Isso muda muito pouco em relação ao fato de que o sistema ambiental está semi desmontado! Vide O crescimento das taças de ddesmatamento na Amazônia. Por outro lado Salles perdeu a interlocução internacional em decorrência desse plano de destruição da política ambiental brasileira!

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