Proteína do fígado liberada no sangue após exercício induz ganho cognitivo

Atividade comunitária de exercícios físicos. Secom/Semes/Prefeitura de Sorocaba.

Estudo evidencia o elo entre o ato de praticar exercício físico e a mudança nas funções cerebrais.

WALACE GOMES LEAL
Especial para Direto da Ciência*

Segunda-feira, 27 de julho de 2020, 6h30.


Todos nós sabemos que o exercício físico é benéfico para o condicionamento físico. Cardiologistas recomendam, no mínimo, meia hora de caminhada diária para um coração mais saudável e para diminuir a possibilidade de um infarto. Além disso, o que é mais notável, é que o exercício também faz bem para a mente e pode influenciar a produção de novos neurônios no cérebro adulto (neurogênese adulta) 1, o que pode contribuir para o bem-estar psíquico, segundo estudos recentes 2. Isso foi demonstrado pela primeira vez em 1999 pela pesquisadora Henriette van Praag e seus colegas 1, na época no Instituto Salk da Universidade da Califórnia em La Jolla, Estados Unidos.

Esse famoso artigo científico foi publicado na revista Nature Neuroscience 1. Os autores mostraram que camundongos corredores, que faziam exercícios em rodinhas adaptadas às suas caixas de laboratório, apresentavam mais neurônios no hipocampo, uma região do cérebro conhecida por ser importante para alguns tipos de memória, incluindo memória espacial e de separação de padrões, onde eventos ou locais parecidos podem ser reconhecidos como entidades distintas 2. Em outros estudos, os autores também mostraram que a sobrevivência dos novos neurônios formados era aumentada quando os animais faziam tarefas em que tinham que aprender algo novo, ou seja, usar mais de suas habilidades funcionais. Enquanto o exercício aumentava o número de novas células no cérebro, a aprendizagem de uma nova tarefa era influenciada por essa atividade, ao mesmo tempo em que contribuía para a sobrevivência das novas células 3.

No entanto, nunca ficou muito claro o elo entre o ato de praticar exercício físico e a mudança nas funções cerebrais. Ou seja, como o ato de praticar o exercício beneficia o cérebro? Em um estudo publicado no dia 10 deste mês 4 na famosa revista Science, os pesquisadores Alana Horowitz, Saul Villeda e seus colegas da Universidade da Califórnia em San Francisco, nos EUA, mostraram que, em uma espécie de camundongos com a idade mais avançada para simular a situação de envelhecimento humano, a prática de exercício físico aumenta a liberação pelo fígado de uma proteína conhecida como fosfolipase-D1, uma enzima que degrada um outro composto conhecido como glicosil-fosfatidil-inositol.

Os autores mostraram que essa proteína liberada pelo fígado tem suas concentrações aumentadas no sangue dos animais após exercício físico e que isso possui um efeito de rejuvenescimento no cérebro. Animais com idade avançada que praticavam o exercício nas rodinhas de laboratório tinham pontuações maiores em testes comportamentais de aprendizagem e memória, além de mais neurônios no hipocampo do que animais-controle sedentários que não faziam exercícios. A transfusão de fatores solúveis do sangue dos animais “corredores” em camundongos mais velhos e sedentários apresentou um efeito benéfico nas funções neurais desse último grupo de animais. Ainda mais importante, os autores também encontraram níveis elevados da enzima hepática mencionada no sangue de humanos idosos que fazem exercício regularmente, mas não de idosos sedentários.

O estudo descrito mostra um elo claro entre a prática do exercício físico e um aumento do desempenho cognitivo e sua relação com a liberação pelo fígado de uma proteína específica que entra na corrente sanguínea e influencia o cérebro de forma positiva, mesmo em humanos. O aumento da neurogênese hipocampal é uma das possíveis maneiras pelas quais esse efeito ocorre. Isso está de acordo com estudos recentes que mostram que doenças como depressão e ansiedade podem acontecer após perda de neurogênese hipocampal, com déficits de flexibilidade cognitiva e separação de padrões, durante estresse crônico 2. Terapias que amplifiquem a neurogênese adulta podem ser consolidadas no futuro na prática médica, como a chamada técnica de “MAP-training” 3 desenvolvida por pesquisadores e psicólogos americanos que usa técnicas de meditação e exercícios aeróbicos para amplificar a neurogênese humana.

WALACE GOMES LEAL é neurocientista e professor associado do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). wgomesleal@gmail.com

Referências

  1. H van Praag, G Kempermann, F H Gage. Running Increases Cell Proliferation and Neurogenesis in the Adult Mouse Dentate Gyrus. Nat Neurosci 1999; 3: 266-70. doi: 10.1038/6368.
  2. Anacker C, Hen R. Adult hippocampal neurogenesis and cognitive flexibility – linking memory and mood. Nat Rev Neurosci 2017; 18:335-346.
  3. Millon EM, Shors TJ. Taking neurogenesis out of the lab and into the world with MAP Train My Brain™. Behav Brain Res 2019; 30: 376:112154. doi: 10.1016/j.bbr.2019.112154
  4. Alana M Horowitz et al. Blood Factors Transfer Beneficial Effects of Exercise on Neurogenesis and Cognition to the Aged Brain. Science 2020; 369 :167-173. doi: 10.1126/science.aaw2622.
Na imagem acima, atividade comunitária de exercícios físicos. Foto: Secom/Semes/Prefeitura de Sorocaba.

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2 Comentários

  1. Maria Lewtchuk Espindola said:

    Desculpe mas acredito que isso não é replicado na nóssa realidade. Pouco se sabe sobre os processos cerebtais. Logo conclusões desse tipo deveriam ser verificadas nas diversas comunidades.
    E basta observar que a conclusão é diferente, nao existe academia de esportes…
    Por isso é que só existe Academia Brasileira de Letras e de Ciências…

    • WALACE GOMES LEAL said:

      Maria, esses resultados foram obtidos na revista Science, um dos mais importantes periódicos do mundo. Em camundongos, eles evidenciaram o crescimento da neurogênese hipocampal e a liberação de fatores tróficos, como o BDNF. Descobriram a enzima fosfolipase D1 como aumentada em animais corredores e em idosos que praticam exercício regularmente, mas não naqueles que são sedentários. Os mecanismos devem ser investigados, mas a evidência científica é bem forte de que o exercício físico é bom para o condicionamento físico e para a mente. Os mecanismos específicos ainda devem ser investigados, mas o estudo comentado mostra um elo importante entre a prática de exercício, aumento da neurogênese e aspectos cognitivos. No futuro, o desenvolvimento de técnicas que permitam a visualização direta da neurogênese no hipocampo humano será fundamental para a confirmação de que o exercício modula a neuroplasticidade do cérebro humano. final da sua frase não entendi o seu ponto.

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