A ciência tem um problema de racismo

Editorial da Cell Press, publisher do periódico Cell, uma das mais importantes revistas científicas do mundo.

Reprodução com autorização especial para Direto da Ciência*
Sábado, 5 de setembro de 2020, 6h30.

Nós somos os editores de um periódico científico comprometido em publicar e disseminar estudos de ponta em diversas áreas das ciências biológicas. Somos 13 cientistas. Nenhum de nós é negro. A sub-representação dos cientistas negros vai além da nossa equipe, mas tange autores, revisores e corpo editorial. E não estamos sozinhos. É fácil desviar a culpa, ressaltar que o periódico científico é um reflexo do establishment científico,1 para citar estatísticas. Mas é essa epidemia de negação do papel integral que todos e cada membro de nossa sociedade desempenham no apoio ao status quo,2 falhando em combatê-lo ativamente, que permitiu que o racismo aberto e sistêmico florescesse, prejudicando as vidas e os meios de vida de negros americanos, incluindo cientistas negros.

A ciência tem um problema de racismo.

Olhe para a história da genética humana, um campo de pesquisa que foi usado repetidamente como “racional” científico para a definição de “raças” humanas e para apoiar desigualdades intrínsecas. Proponentes da eugenia3 usam os alelos que carregamos como razão para declarar superioridade racial, como se a expressão do gene da lactase4 trouxesse em si a humanidade de alguém. Raça não é genética. Olhe para a exploração de indivíduos negros em pesquisa. Reconheça o grande volume de pesquisa científica atual possibilitado por células roubadas, décadas atrás, de Henrietta Lacks, uma mulher negra que tinha câncer. Lembre-se do estudo da sífilis de Tuskeegee que não liberou, intencionalmente, tratamento apropriado para centenas de homens negros. Pense nas questões de consentimento, de propriedade e ética médica, e não negligencie o senso de compartilhamento coletivo sobre as desigualdades raciais, nas quais pessoas negras são expostas nessas violações.

Observe a extrema disparidade nas bases de dados genéticas e clínicas que os cientistas criaram com a esmagadora maioria dos dados de americanos brancos de ascendência europeia e a escassez de compreensão da saúde e doença em indivíduos negros. Vejam a disparidade estatística sobre morbidade e mortalidade em hospitais de todo o país, destacadas pela atual pandemia. Pergunte por que as mulheres negras têm cinco vezes mais chances de morrer do que as brancas durante a gravidez ou por que as crianças negras têm duas vezes mais chances de morrer do que os bebês brancos nascidos nos Estados Unidos da América. A saúde das pessoas negras nunca foi a prioridade.

A ciência tem um problema de racismo. E não se limita às descobertas científicas e suas aplicações. O establishment científico, a educação científica e as métricas usadas para definir o sucesso científico também têm um problema de racismo.

Os negros americanos enfrentam uma montanha de desafios construídos em séculos de racismo estrutural sistêmico e história de escravidão e opressão racial nos Estados Unidos. Oportunidades educacionais, orientação e representação e nossas atitudes arraigadas e muitas vezes inconscientes desempenham um papel nessa questão.

O sistema de seleção nas organizações acadêmicas (gatekeeping), industriais e científicas não foi projetado para corrigir séculos de desvantagem e opressão. É hora de renovar.

É fundamental que membros da comunidade que têm os meios para aprovar mudanças possam fazê-lo. Comitês de contratação, educadores, mentores, comitês de admissão, colegas de classe, pesquisadores – o que você pode fazer para aumentar o número de estudantes negros em suas comunidades e instituições? Nenhum de nós, individualmente, pode conter a maré do racismo ou reconstruir uma sociedade injusta, mas toda ação ajuda.

Fazemos parte do problema, assim como todos nós que não pressionamos por mudanças diariamente. Não deveriam ter sido necessárias as mortes recentes de George Floyd, Breonna Taylor e Ahmaud Arbery para nós falarmos e agirmos. Estamos nos perguntando o que podemos fazer para sermos aliados mais fortes, antirracistas mais fortes.

O periódico Cell está ao lado dos nossos leitores, revisores, autores e colegas negros. Somos comprometidos em ouvir e amplificar suas vozes, nos educando e encontrando maneiras pelas quais podemos ajudar e fazer melhor. Sozinhos nós não podemos consertar o racismo. Mas temos a vantagem de ter uma plataforma, e a colocaremos para trabalhar, ouviremos e agiremos.

Para começar, comprometemo-nos com as seguintes ações para destacar e aumentar a representação dos cientistas negros.

  1. Representando – destacaremos mais a produção de autores negros e outras minorias menos representadas; amplificaremos suas vozes e divulgaremos seus artigos publicados em Cell nas mídias sociais. Se você é uma pessoa de cor negra e deseja ser destacado dessa maneira, informe-nos. Envie um e-mail ao editor do seu artigo com o assunto “Os Rostos de Cell,” em qualquer momento do processo de publicação, e teremos a honra de fazer “posts” do seu trabalho com sua foto e um link para o seu Twitter. Também retuitaremos suas postagens e stories.
  2.  Educando – estamos comprometidos em destacar questões de importância para a comunidade científica em nossas páginas. Temos o compromisso de destacar autores negros convidados por nós e suas perspectivas em artigos de revisão e comentários que publicamos para o bojo da comunidade científica. O seu departamento ou instituto já começou a fazer as mudanças necessárias ou criou iniciativas bem-sucedidas? Diga-nos e vamos compartilhar essas iniciativas. Tem novas ideias? Informe-nos.
  3. Diversificando – comprometemo-nos em melhorar a diversidade de nosso conselho consultivo e de nossos revisores usando nossa experiência com iniciativas de equidade de gênero para aumentar a representação de cientistas não brancos, que é muito baixa. Estamos ativamente estudando maneiras de melhorar a diversidade com nossos esforços de divulgação, recrutamento e contratação, em Cell e na Cell Press, nossa editora. Se você é um cientista negro interessado em carreiras editoriais, entre em contato. Estamos ansiosos para conversar.
  4. Ouvindo – somos editores porque queremos aprender. Se existem maneiras que podemos usar nossa voz e nossa plataforma para ajudar a comunidade de cientistas negros, queremos ouvi-los. Envie uma mensagem eletrônica se tiver ideias concretas para perspectivas que deseja ver ou maneiras criativas que você acha que podemos ajudar. Prometemos ouvi-las.

Nós e nossos colegas da Cell Press esperamos servir como uma pequena parte da amplificação das “vozes negras” em UNÍSSONO, e isso é apenas o começo. Estamos aprendendo e, quase que certamente, cometeremos erros ao longo do caminho. Mas o silêncio não é, e nunca deveria ser, uma opção.

A ciência tem um problema de racismo. Os cientistas são solucionadores de problemas. Vamos juntos resolvê-lo.

EQUIPE EDITORIAL DE CELL
(Tradução: Walace Gomes Leal)

Notas do tradutor

  1. O termo “establishment” é usado para descrever um grupo dominante ou elite que controla a política ou uma organização específica. Ele pode conter um grupo social fechado que seleciona seus membros. No texto, os autores referem-se à elite intelectual, o bojo da comunidade científica, os melhores e mais influentes autores.
  2. Status quo: é um termo que vem do latim para designar um “estado de coisas”. Em sociologia refere-se à manutenção de uma estrutura social e de valores. No texto os autores se referem à manutenção da atual estrutura científica onde autores negros são sub-representados.
  3. Eugenia: uma concepção preconceituosa, errônea e pseudocientífica, baseada em alguns experimentos de melhoramento genético feitos em plantas e animais, que pregavam a noção de que seria possível criar seres humanos melhorados a partir do controle genético dos mesmos. Esses supostos aprimoramentos não seriam, porém, apenas biológicos, mas também sociais, psicológicos, econômicos e culturais. As absurdas ideias da teoria eugênica foram utilizadas largamente para propagar preconceitos e discriminações entre diferentes grupos sociais. Inicialmente esta noção surgiu na Inglaterra no início do século 19, difundidas inicialmente por Francis Galton. Elas foram amplamente disseminadas pelo mundo e utilizadas com diferentes propósitos, inclusive pelo regime nazista para apregoar a superioridade da suposta raça ariana e o extermínio de pessoas judias, causando o Holocausto.
  4. A lactase é uma enzima que degrada a lactose, um tipo de açúcar presente no leite, em glicose e galactose no intestino delgado. Acredita-se que há cerca de 9 mil anos nossos ancestrais hominídeos começaram a domesticar os animais, incluindo bovinos, e começaram a se alimentar do leite da vaca. No entanto, nessa época, maior parte dos indivíduos não conseguia produzir a lactase. Estudos genéticos sugerem que algum indivíduo sofreu uma mutação que o permitiu sintetizar essa enzima, obtendo com isso vantagem evolutiva sobre os demais. Como europeus – principalmente nos países nórdicos, onde os indivíduos tradicionalmente bebem muito leite –, têm menos intolerância à lactose que africanos, supremacistas brancos distorceram a ideia e desenvolveram conceitos racistas de superioridade racial.
Publicado originalmente em 8.jun.2020 (Cell. 2020; 181:1443-1444. doi: 10.1016/j.cell.2020.06.009).
Na imagem acima, imagem de Tumisu por Pixabay.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


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