Quando uma vida se apaga: a neurobiologia do suicídio

Resiliência a condições adversas extremas pode estar relacionada à capacidade de o cérebro adaptar-se a novas situações.

WALACE GOMES LEAL
Especial para Direto da Ciência*
Quinta-feira, 10 de setembro de 2020, 6h30.

O ano era 2006. Eu estava prestes a viajar para a Suécia para fazer um treinamento de pós-doutoramento no Wallenberg Neuroscience Center, em Lund. Nessa universidade sueca, o neurologista e neurocirurgião Olle Lindvall fazia estudos incríveis sobre neurogênese adulta. Eu havia escrito para o Olle e ele tinha me aceitado para o estágio de pós-doutoramento. Lembro de ter ido ao banco para resolver algumas coisas sobre a viagem. Não recordo bem, mas parece ter sido em junho. Na saída do banco, encontrei o professor Carlos Rocha. Éramos amigos. Ele tinha sido meu colega por alguns anos na Casa do Estudante Universitário do Médio Amazonas (CEUMA), em Belém, onde morei na época que cursava biomedicina na Universidade Federal do Pará (UFPA). Á época, o Carlos estudava farmácia. Lembro que logo no início do curso ele conseguiu um estágio em um importante laboratório de análises clínicas. Saía muito cedo, todos os dias, com uma roupa branca, lembro como se fosse hoje.

Eu admirava a força que ele tinha. Veio de uma família humilde, de uma pequena cidade no interior da Bahia, e já estava encaminhando sua carreira, consolidando o seu conhecimento na área de farmácia. Foi um dos primeiros estudantes da CEUMA a conseguir estágio. Eu, à época, era um aluno de iniciação científica de um Laboratório de Neurociências no Instituto de Ciências Biológicas da UFPA.

Nos falamos rapidamente nesse dia, em frente ao banco. Ele já era doutor em farmacologia pela Universidade Federal do Ceará e professor da faculdade de farmácia da UFPA. Falei a ele sobre os meus projetos que visavam desenvolver um neuroprotetor para acidente vascular cerebral (AVC), derivado de algumas plantas da Amazônia. Disse que tinha problemas com a diluição dos extratos. O Carlos era um excelente farmacêutico e pesquisador, e me falou para o usar o Tween a 5% como diluente. Até hoje é o diluente que uso nesses estudos. Perguntei ao Carlos como estava a vida. Me disse que enfrentava problemas familiares e se divorciara, mas não entrou em detalhes. Nos despedimos e nunca mais o vi.

 

Resiliência perdida

Em agosto de 2006, eu cheguei à Suécia. Passaram-se alguns meses e eu soube da notícia. O Carlos havia se suicidado. Enforcou-se na solidão da sua casa. Lembro que aquilo causou um grande impacto sobre mim. Eu acordava no meio da noite e pensava no meu amigo. Foram muitas noites, e mesmo de dia. Pensei no que deve ter passado em sua mente e o que o fez desistir da vida. Pensava nas últimas horas da sua agonia. O que o levou a tomar aquela terrível decisão? Desistir da vida. O sofrimento psíquico foi maior do que a vontade de viver. Nunca saberemos o que se passou na mente do professor Carlos Rocha.

Onde se perdeu a resiliência que ele tinha em 1991, quando era apenas um estudante, quando acordava cedo para ir atrás dos seus sonhos? Não sabemos, mas a resposta pode estar relacionada a mecanismos inerentes à neuroplasticidade cerebral, a capacidade que o cérebro possui de, dinamicamente, adaptar-se a novas situações, inclusive as adversas. A resiliência ao suicídio parece depender da neuroplasticidade que ocorre no giro denteado (GD) do hipocampo, como, por exemplo, a produção de novos neurônios,1-5 segundo um novo artigo publicado por Maura Boldrini e seus colegas do Departamento de Psiquiatria da Universidade Columbia em Nova York.6

Nesse estudo, publicado ano passado no importante periódico da área de psiquiatria Biological Psychiatry, da Elsevier, Maura Boldrini e seus colegas investigaram os cérebros de 52 pessoas falecidas, divididas nos seguintes grupos: a) pessoas que tiveram uma adversidade precoce na vida (APV) antes dos 15 anos, tais como separação dos pais, violência doméstica ou abuso sexual, mas não desenvolveram depressão; b) pessoas que não tiveram APV; c) pessoas que tiveram APV, desenvolveram depressão maior e se suicidaram; e d) pacientes que tiveram depressão maior e se mataram, mas não tiveram APV.

 

Neurogênese

Esse estudo foi motivado porque nem todas as pessoas que têm depressão, com ou sem APV, se suicidam. Além disso, muitas pessoas que têm APV nem desenvolvem sequer depressão, os chamados resilientes, ou seja, os que superam as adversidades da vida sem maiores transtornos ou situações extremas como o suicídio. Na verdade, dados recentes sugerem que metade das pessoas que se matam ou tentam se matar sofrem de depressão. Maura Boldrini e seus colegas investigaram a hipótese de que a resiliência às adversidades da vida pode depender de características inerentes à neurobiologia cerebral, como a neuroplasticidade. Como discutimos em outras publicações,2-3 a produção de novos neurônios no giro denteado do hipocampo, mesmo em pessoas de 90 anos, a chamada neurogênese hipocampal, é um tipo de neuroplasticidade, mas existem outras formas, como a modificação dinâmica dos ramos dos neurônios, conhecidos como axônios e dendritos.

Ao avaliar os cérebros das pessoas falecidas dos grupos já descritos, Maura Boldrini e seus colaboradores acharam que o giro denteado de pessoas resilientes, – ou seja, que tiveram APV e depressão, mas não se mataram – era maior do que nos indivíduos que tiraram a própria vida. Isso pode ocorrer devido a um aumento da produção de novos neurônios no giro denteado como uma adaptação do cérebro à adversidade. Esse resultado também sugere que eventos neurobiológicos intrínsecos podem estar relacionados à resiliência aos eventos tristes e negativos da vida e que isso pode ser diferente de pessoa para pessoa. Outras alterações, aqui não discutidas, ocorrem no cérebro de suicidas e de pessoas com depressão severa, incluindo alterações no número de alguns receptores (pequenas proteínas presentes nas membranas dos das células) para corticosteroides que têm importante influência na resposta ao estresse.

Outros estudos sugerem que alguns indivíduos com depressão crônica e com ideação suicida (vontade de se matar) apresentam um déficit de flexibilidade cognitiva que é a capacidade de adaptar-se a novas situações.7 Estes indivíduos parecem ter uma dificuldade inerente de resolver problemas devido a alterações nos seus circuitos e/ou neuroquímica cerebral na desordem afetiva crônica, como a depressão.8

 

Setembro Amarelo

O suicídio é uma situação extrema e uma tomada de decisão equivocada motivada pela agonia, desespero e um sofrimento atroz. Metade das pessoas que se suicidam têm depressão,2 uma desordem afetiva tratável. Em 2017, 44.713 pessoas se suicidaram nos Estados Unidos. No Brasil, cerca de 11 mil pessoas se matam por ano, segundo dados do Ibope. Quantas vidas já foram perdidas, de pessoas de todas as idades, mas também jovens e brilhantes como meu querido amigo professor Carlos Rocha. A ciência busca desvendar a neurobiologia do suicídio, seus mecanismos moleculares e sua relação com a neuroplasticidade. É provável que uma entidade nosológica* psiquiátrica distinta seja criada para classificar o suicídio como uma nova desordem psiquiátrica.9

Vamos torcer, neste Setembro Amarelo do ano de 2020, para que a luz brilhante e amarela do Sol possa iluminar cada vez mais vidas livres do suicídio, da ansiedade, depressão, desordem de estresse pós-traumático, transtorno bipolar e outras doenças da mente! Como sugeriu Carl Sagan: “que a ciência possa iluminar a escuridão”.

WALACE GOMES LEAL é professor de neurociências do Programa de Pós-graduação em Neurociências e Biologia Celular da Universidade Federal do Pará (Ufpa) e professor associado do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). wgomesleal@gmail.com

Nota do autor

*Nosologia é o ramo da medicina que trata da classificação internacional das doenças.

Referências

  1. Anacker C, Hen R. Adult hippocampal neurogenesis and cognitive flexibility – linking memory and mood. Nat Rev Neurosci 2017; 18:335-346.
  2. Gomes-Leal W. Novos neurônios para o bem estar psíquico. Direto da Ciência.
  3. Gomes-Leal W. De que modo a produção de novos neurônios pode combater a depressão? Jeso Carneiro.
  4. Boldrini M, Fulmore CA, Tartt AN, Simeon LR, Pavlova I, Poposka V, Rosoklija GB, Stankov A, Arango V, Dwork AJ, Hen R, Mann JJ. Human hippocampal neurogenesis persists throughout aging. Cell Stem Cell 2018; 22:589-599.
  5. Moreno-Jiménez EP, Flor-García M, Terreros-Roncal J, Rábano A, Cafini F, Pallas-Bazarra N, Ávila J, Llorens-Martín M. Adult hippocampal neurogenesis is abundant in neurologically healthy subjects and drops sharply in patients with Alzheimer’s disease. Nat Med 2019; 25:554-560.
  6. Boldrini M, Galfalvy H, Dwork AJ et al. Resilience is associated with larger dentate gyrus, while suicide decedents with major depressive disorder have fewer granule neurons. Biol Psychiatry 2019; 85: 850-862. doi: 10.1016/j.biopsych.2018.12.022.
  7. Marzuk PM, Hartwell N, Leon AC, Portera. Executive functioning in depressed patients with suicidal ideation. Acta Psychiatr Scand 2005; 112: 294–301. doi: 10.1111/j.1600-0447.2005.00585.x
  8. Mark J, Williams G, Barnhofer T, Crane C, Beck AT. Problem solving deteriorates following mood challenge in formerly depressed patients with a history of suicidal ideation. J Abnorm Psychol 2005; 114: 421-31. doi: 10.1037/0021-843X.114.3.421.
  9. Sisti D, Mann J, Oquendo MA. Toward a distinct mental disorder-suicidal behavior. JAMA Psychiatry 2020; Mar 18. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2020.0111.
Na imagem acima, ilustração de John Hain para Pixabay.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


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