Os exoplanetas e a redenção de Giordano Bruno

‘Esse espaço que nós declaramos infinito pode conter uma infinidade de mundos, muitos dos quais podem ser até similares ao nosso’, afirmou o pensador em 1584.

WALACE GOMES LEAL
Especial para Direto da Ciência*
Domingo, 20 de setembro de 2020, 6h30.

Em 22 de julho, pesquisadores holandeses publicaram um artigo no periódico The Astrophysical Journal Letters com imagens incríveis de uma estrela fora do Sistema Solar orbitada por múltiplos exoplanetas.1 A estrela TYC 8998-760-1 está a 300 anos-luz da Terra, ou seja, para chegarmos lá teríamos que viajar 300 anos em uma nave à velocidade da luz. A estrela, segundo os autores, é muito parecida com o Sol, mas um verdadeiro bebê em relação à nossa estrela. TYC 8998-760-1 possui cerca de 17 milhões de anos de idade, enquanto o Sol tem 4,5 bilhões de anos. Os autores acreditam que o estudo desse novo sistema estelar pode revelar fatos importantes.

Foto  2. Imagem do European Southern Observatory (julho/2020) mostra a estrela TYC 8998-760-1, em cima à esquerda, e dois exoplanetas, a 300 anos-luz da Terra. Foto: ESO/Bohn et al./ Divulgação. (Clique na imagem para ampliá-la.)

Os planetas mostrados na Foto 2 possuem, respectivamente, 14 e 30 vezes a massa de Júpiter, um dos gigantes gasosos do nosso Sistema Solar. Esses planetas são gigantescos, considerando que cerca de 30 terras cabem dentro de Júpiter. As imagens notáveis só foram captadas porque os pesquisadores usaram instrumentos que bloqueiam boa parte da luz das estrelas, permitindo a observação da tênue luz refletida pelos exoplanetas.

Esses achados cosmológicos nos fazem refletir sobre o quanto evoluímos a partir da nossa humilde origem como caçadores-coletores nas savanas africanas, andarilhos nômades que lutavam pela sobrevivência há cerca de 2 milhões de anos. Também nos fazem pensar no grande monge agostiniano, doutor em teologia, filósofo e pensador Giordano Bruno.2 Ele nasceu em 1548 na cidade de Nola, na atual Itália, e ordenado monge em 1576. Foi queimado vivo em 17 de fevereiro de 1600 pelo tribunal da Santa Inquisição da Igreja Católica, em Roma. Era considerado subversivo pela Igreja por sua filosofia cosmológica e por se opor a diversos dogmas religiosos.

 

Universo infinito

Em 1584, Giordano Bruno escreveu “(…) as estrelas no céu são tão numerosas que nosso Sol pode ser apenas uma de muitas delas. Certamente estas outras estrelas devem ser orbitadas por uma infinidade de planetas, os quais podem mesmo ser habitados por outros seres (…)”. Ele também acreditava que “o universo não teria um centro e poderia ser mesmo infinito e que a Terra era apenas um planeta na infinitude do cosmos”. Isso nos tirava da posição privilegiada pregada pelo filósofo grego Aristóteles (385-323 a.C) e fundamentada pelo também filósofo Ptolomeu (90-168 d.C.) na sua obra “Almagesto”, adotada pela Igreja, de que nosso planeta estava incólume, fixo e majestoso no centro do universo.

Giordano Bruno foi um questionador e era adepto do heliocentrismo, a noção de que o Sol é o centro do nosso sistema planetário, uma ideia desenvolvida pelo filósofo grego Aristarco de Samos (310-230 a.C.) e colocada em termos formais pelo matemático, astrônomo, médico e jurista polonês Nicolau Copérnico (1473-1543). A Igreja usava apenas as concepções filosóficas que se adequavam às suas crenças religiosas. Todo pensamento filosófico que se contrapunha aos dogmas estabelecidos eram extirpados e seus autores geralmente mortos.

Giordano escreveu em 1584 que “(…) esse espaço que nós declaramos infinito pode conter uma infinidade de mundos, muitos dos quais podem ser até similares ao nosso (…)”. Ele era muito à frente do seu tempo, apesar de que alguns autores antes dele já haviam aludido algo similar. No entanto, ele era incisivo e um ferrenho defensor da sua filosofia cosmológica. Também possuía um lado místico e panteísta, ao afirmar que todos os seres animados e inanimados possuíam um tipo de alma pois eram constituídos pelos mesmos tipos de átomos. A Igreja começou a persegui-lo por suas ideias, o que o levou a fugir da Itália aos 28 anos, tornando-se um peregrino por vários países, como Inglaterra, França e Alemanha, onde encontrou refúgio. Publicou alguns livros difundindo suas ideias, que se tornaram muito conhecidas. Isso o fez ser considerado um pária para a Igreja que sempre quis capturá-lo.

 

Heresia

Quando Giordano morou na Alemanha, segnundo relatos históricos, recebeu um convite de um conhecido italiano chamado Giovanni Mocenigo, que se dizia admirador das suas ideias. No entanto, ao chegar na casa de Mocenigo, na Itália, Giordano foi traído, denunciado ao tribunal da Santa Inquisição e posto no cárcere por sete anos, sem qualquer julgamento, sob a acusação de heresia. Quando foi julgado, o próprio Mocenigo testemunhou contra ele. Giordano Bruno foi condenado à morte por recusar-se a renunciar suas ideias. Sua execução foi horrenda. Ele foi preso a um pilar de madeira, chicoteado, estripado e levado nu pelas ruas de Roma. Sua língua foi imobilizada com uma estrutura de couro. Depois, em 1600, para que todos vissem, foi queimado vivo no local atualmente conhecido como Campo de Fiori (campo de flores), em Roma, no ano de 1600. Seus livros foram considerados proibidos pela Igreja, e isso perdurou até 1966.

Faz mais de 400 anos que Giordano Bruno foi torturado e morto pela Santa Inquisição. Em 31 de outubro de 1992, o papa João Paulo II pediu perdão pela sua condenação e morte pela Igreja Católica. Quem visita o Campo das Flores, em Roma, pode ver uma imponente estátua do grande filósofo da cosmologia. No entanto, isso não o redime. Sua redenção ocorre quase todos os dias, quando um exoplaneta novo é descoberto. Até hoje, mais de quatro mil destes planetas fora do Sistema Solar já foram documentados na Via Láctea pela Nasa. No dia 15 de junho, os astrofísicos Tom Westby and Christopher J. Conselice, da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, publicaram um artigo especulativo, baseado em modelos matemáticos, no periódico The Astrophysical Journal3 sugerindo que podem existir cerca de 36 civilizações inteligentes na nossa galáxia. No entanto, a mais próxima delas estaria há cerca de 17 mil anos-luz da Terra.

 

‘Incontáveis sóis’

No dia 14 deste mês, um artigo no periódico Nature Astronomy 4 relatou a presença do gás fosfina (PH3) na atmosfera de Vênus, que é extremamente ácida e letal para qualquer forma de vida conhecida aqui na Terra, por ser rica em ácido sulfúrico. No entanto, a presença de fosfina em Vênus pode indicar a existência de uma reação química ainda não descrita em nosso planeta ou pode ser o produto de um micróbio venusiano. Aqui na Terra o gás fosfina só pode ser gerado pela atividade industrial ou pela ação de organismos anaeróbios. O que oxidou o fósforo para gerar o gás fosfina em Vênus? Talvez a resposta a esta pergunta mude completamente a nossa forma de pensar sobre o universo.

Se existem os “incontáveis sóis” e uma infinidade de outros planetas,” como sugeriu Giordano Bruno e depois mostrou Galileu; se existem bilhões de outras galáxias em expansão como mostrou Edwin Hubble (1889-1953), talvez outros mundos habitados por micróbios alienígenas ou mesmo seres inteligentes também possam existir.

WALACE GOMES LEAL é professor dos programas de Oncologia e Ciências Médicas e de Neurociências e Biologia Celular da Universidade Federal do Pará (Ufpa) e professor do Programa de Pós-Graduação da Rede Bionorte e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). wgomesleal@gmail.com

Referências

  1. Alexander J. Bohn, Matthew A. Kenworthy, Christian Ginski et al. Two Directly Imaged, Wide-orbit Giant Planets around the Young, Solar Analog TYC 8998-760-1. The Astrophysical Journal Letters 2020; 898: 1-10.
  2. Michio Kaku. Kepler and a universe of planets. In: The future of humanity: terraforming Mars, interestellar travel, immortality and our destiny beyond Earth. Double Day, New York, 2018.
  3. Tom Westby and Christopher J. Conselice. The Astrobiological Copernican Weak and Strong Limits for Intelligent Life. The Astrophysical Journal 2020; 896: 1-18.
  4. Jane S. Greaves, Anita M. S. Richards, William Bains et al. Phosphine gas in the cloud decks of Venus. Nature Astronomy 2020.
Na imagem no alto, estátua do filósofo Giordano Bruno (1548-1600), em Roma, Itália. Foto: Maurizio Martella/Wikimedia Commons.

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