Amazônia: a hora e a vez da bioeconomia

Há um universo de possibilidades tornando-se cada vez mais concreto por meio das agendas da bioeconomia e dos serviços ambientais.

PEDRO SOARES
especial para Direto da Ciência.*
Sexta-feira, 2 de outubro de 2020, 6h30.

Está mais do que na hora de o Brasil aproveitar as oportunidades de valorizar seus ativos ambientais e ampliar o modelo de desenvolvimento para a Amazônia baseado na bioeconomia, aliando a geração de riqueza à preservação da floresta em pé. Não podemos mais pactuar com um modelo de desenvolvimento econômico que, nos últimos 30 anos, levou à redução de 20% das florestas e pouco contribuiu para o desenvolvimento social e econômico da região. Atualmente, a Amazônia Legal representa menos de 8% do PIB do Brasil, apesar de toda a perda imposta ao ambiente natural.

A Amazônia vive um misto de grandes desafios e oportunidades. No campo dos desafios, os sinais e ações do governo federal revelam baixa eficiência da fiscalização e do controle do desmatamento e das queimadas na região, resultando na conversão do maior patrimônio natural dos brasileiros em pastagens de baixa produtividade.

No campo das oportunidades, há um universo de possibilidades tornando-se cada vez mais concreto por meio das agendas da bioeconomia e dos serviços ambientais. Uma das iniciativas mais recorrentes é o compromisso, assumido por empresas conscientes de seu papel na regulação climática, para compensação das emissões de gases de efeito estufa (GEEs).

Não existe solução única para toda a Amazônia, muito menos simples e fácil. Devido à imensa extensão do bioma, um dos caminhos parte da valorização da diversidade de atores e de dinâmicas sociais e econômicas de cada subregião para construção de soluções eficientes e duradouras, conectadas às particularidades e à vocação de cada uma delas.

Com relação ao desmatamento, parte da solução para o problema está no fortalecimento das agendas dos serviços ambientais e da bioeconomia, aproveitando experiências já realizadas e em andamento que vêm obtendo excelentes resultados. Não faltam bom exemplos e iniciativas que demonstram resultados concretos de valoração dos serviços ambientais para fomento a negócios locais. Um deles é o Café Agroflorestal de Apuí, o primeiro café com certificação orgânica produzido na Amazônia, disponível em mercados de São Paulo e Manaus.

Soluções como essa, aplicadas de forma perene e em escala, certamente conseguirão dar suporte a um novo ecossistema de inovação para a Amazônia, promovendo o desenvolvimento de novos produtos e ativos da biodiversidade. Estes ativos têm potencial para abastecer mercados consumidores e grandes indústrias, enquanto geram renda e emprego para as comunidades e populações locais.

É preciso conectar os produtos da biodiversidade, como frutos, óleos, alimentos e fármacos, com consumidores das regiões Sul e Sudeste do País, mas questões como logística, comercialização e escoamento da produção acabam gerando custos adicionais significativos, inviabilizando o desenvolvimento de negócios locais. Recentemente foi criada uma marca coletiva para comercializar produtos florestais amazônicos. A iniciativa possibilita a oportunidade de comercialização de óleos vegetais com uma maior industrialização e em maiores lotes de produção, valorizando ainda mais o trabalho das famílias que vivem do extrativismo.

Ações como essa mostram o caminho a ser trilhado, mas somente com o aprofundamento do debate sobre os desafios e as oportunidades para o estabelecimento de novos negócios florestais conseguiremos, de fato, encontrar soluções que que aliem a conservação e a proteção das florestas com o desenvolvimento social e econômico local.

A atração de incentivos econômicos complementares que fomentem o desenvolvimento de novos negócios florestais é uma das alternativas para superar esses desafios. Os recentes compromissos empresariais para compensar emissões de GEEs podem ser concretizados por meio de incentivos econômicos em iniciativas locais, alimentando o fluxo de caixa das principais cadeias produtivas que têm dificuldade de se sustentar dentro de uma perspectiva econômica, devido aos imensos desafios inerentes à região amazônica.

No Amazonas, está em fase de regulamentação a Lei dos Serviços Ambientais, que vai permitir ao Estado obter recursos com a preservação da floresta. Embora a lei seja de 2015, para sua efetivação, ela precisa considerar questões como Redd (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), que significa incluir na contabilidade das emissões de GEEs, aquelas que são evitadas pela redução do desmatamento e a degradação. No Acre e no Mato Grosso há iniciativas que já colhem resultados com a remuneração de Pagamento de Serviços Ambientais.

O momento é adverso e de baixa eficiência das políticas federais. Faltam projetos e planos concretos para a Amazônia, assim como metas, responsáveis, indicadores e orçamento. Entretanto, temos à nossa frente a possibilidade de estruturar um caminho alternativo, que alie o capital financeiro de grandes empresas e indústrias com o capital natural da Amazônia. Esta é a hora e a vez da bioeconomia.

PEDRO SOARES é gerente de Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam).


* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Juma, no Amazonas. Foto: Idesam/Divulgação.

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