Fake news e eleições: dez dicas de filmes e livros para entender o assunto

Os mecanismos e as motivações por trás das principais máquinas de mentiras espalhadas pelo mundo.

ALEXANDRE CAMPOS*

Sábado, 7 de novembro de 2020, 7h00.


As eleições municipais estão aí e um fenômeno que preocupa profissionais da comunicação, do direito, das ciências sociais e políticas e a sociedade civil em geral são as fake news. Muito tem se falado sobre isso e, nos últimos meses, diversas lives reuniram especialistas de várias áreas para debaterem o tema e tentarem antever os desafios eleitorais. Tive a satisfação de mediar uma delas, organizada pela Associação de Jornalistas do Sul Fluminense (Ajosul). A live foi bastante ampla, reunindo representantes da área acadêmica, de fact-checking e do meio jurídico. Vale a pena conferir em “Cobertura eleitoral em tempos de fake news”.

As fake news são apontadas como parte de um fenômeno mais amplo, que é o da pós-verdade (ou pós-fato, como preferem alguns especialistas). O termo “pós-verdade” foi eleito a palavra do ano de 2016 do “Dicionário Oxford”. No entendimento da Universidade de Oxford, a expressão “pós-verdade” relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais.

As fake news, vale lembrar, não são uma novidade. Elas existem desde os primórdios do jornalismo. A diferença da atualidade está no casamento com a tecnologia, que amplia a velocidade de compartilhamento, as facilidades de edição e simulação de veículos noticiosos (cada vez mais surgem páginas de fake news que imitam a diagramação, layout e redação típicos do jornalismo) e o engajamento das pessoas com as mentiras. Sim, muita gente quer acreditar na mentira simplesmente porque concorda com ela, porque ela contribui, de alguma forma, para seus valores e visões de mundo.

De acordo com estudiosos dos fenômenos das fake news e da pós-verdade, o marco dessa onda tecnológica atual foi mesmo o ano de 2016, por conta da eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, e do plebiscito do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia, coisa que até hoje tem dado muito o que falar por lá). Enquanto o dia da eleição não chega, podemos entender um pouco mais sobre os impactos da desinformação na política e no cotidiano e aprender quais sãos seus mecanismos e as motivações de quem está por trás das principais máquinas de mentiras espalhadas pelo mundo: no Brasil, na Rússia e até na pacata Macedônia. Aqui selecionamos dez obras (seis filmes e quatro livros) nacionais e estrangeiras que discutem as fake news no contexto eleitoral.

 

Filmes

“Privacidade Hackeada” (2019). Disponível na Netflix, o documentário foca no escândalo da participação da  Cambridge Analytica em algumas eleições, inclusive na dos Estados Unidos, em 2016, em que Trump foi eleito. Por meio de depoimentos, até mesmo de alguns ex-colaboradores da empresa, o filme se aprofunda nas artimanhas tecnológicas das redes sociais que se apropriam dos nossos dados e influenciam nosso comportamento e, claro, nosso voto. O ex-CEO da companhia, Alexander Nix, a classificava como uma “empresa de comunicação orientada por dados”. “Privacidade Hackeada” expõe de forma impressionante o nível de influência e manipulação que as técnicas da Cambridge Analytica tiveram em diversas campanhas do mundo, como na Argentina (2015), Trinidade e Tobago (2009), Malásia (2013), Itália (2012), dentre outros países. “É a personalidade que impulsiona o comportamento, e o comportamento obviamente influencia em quem você vota”, diz Nix. (“Privacidade Hackeada, da Netflix, te fará repensar tudo o que você vê na internet”).

“The Waldo Moment” (2013). Que “Black Mirror” é o tipo de obra que nos ajuda a entender a atualidade, acho que ninguém que tenha assistido alguns bons episódios da série tem dúvidas. O terceiro episódio da segunda temporada – The Waldo Moment – mostra como Waldo, um ursinho azul desbocado, gerado por computação gráfica para debochar e ofender políticos, acaba se tornando candidato nas eleições locais do Reino Unido. Com um discurso niilista contra “tudo o que aí está”, Waldo arrebata corações de um eleitorado apolítico e cheio de revolta. No entanto, o humorista Jamie Salter, responsável pelo personagem, não gosta muito da ideia da candidatura, mas, contra a sua vontade, se vê obrigado a aceitar e conduzir o sucesso do personagem. Salter sabe que a candidatura não tem proposta nem conteúdo. É puro escárnio e irrealidade. O processo eleitoral é o fio condutor da trama. E você, conhece algum Waldo de carne e osso de alguma eleição? (“Como ‘Black Mirror’ ajuda a entender o fenômeno Bolsonaro”, Época)

“O dilema das redes” (2020). Semelhante a “Privacidade Hackeada”, esta produção, lançada neste ano pela Netflix, também foca nos algoritmos e aspectos técnicos das redes sociais, embora não aborde o caso da Cambridge Analytica. O filme nos mostra como a arquitetura dessas plataformas é feita para gerar mudanças em nosso comportamento, prender nossa atenção e até nos viciar. Os próprios tecnólogos comentam quais são os seus vícios digitais. O que é preocupante: se eles, que têm consciência das artimanhas tecnológicas, se vêem reféns em alguns casos, imagine nós, pobres mortais. “O Dilema das Redes” possui algumas sequências dramatizadas que retratam muito bem o quanto ficamos viciados em telefone celular e a baixa autoestima que as novas mídias têm gerado nos mais jovens, que se vêem em uma sociedade de superexposição e excesso de objetividade com a ditadura dos likes. O filme também traz todas essas problematizações para o campo político, mostrando como as redes têm favorecido ideias radicais e influenciado nas eleições. A propósito, com referências ao Brasil e à eleição do presidente Jair Bolsonaro (“5 lições de “O Dilema das Redes”, doc que mostra o vício nas redes sociais”, Nina Lemos)

“Fake news – baseado em fatos reais” (2017). Mais um documentário, só que, desta vez, brasileiro, produzido pela equipe do Que mundo é esse?, da GloboNews. A produção vai aos Estados Unidos, Reino Unido, Rússia e até à Macedônia para investigar o fenômeno das fake news. Apesar de ser um documentário brasileiro, peca por não se aprofundar tanto na realidade do próprio país. Realizado um ano antes das eleições de 2018, a impressão que dá ao revermos o filme atualmente é que a tsunami das fake news foi um tanto subestimada quanto a seus impactos políticos e eleitorais no Brasil. Mas certamente o ponto alto de ‘Fake news – baseado em fatos reais’ é a pacata e insuspeita Macedônia. Por ser um polo de mão de obra barata no ramo da tecnologia digital, o país europeu virou celeiro mundial de produção de fake news, influenciando eleições como a de Trump, nos EUA, e o Brexit, no Reino Unido. A equipe entrevista um dos “Veles Boys”. O grupo de profissionais da cidade de Veles ficou assim conhecido por conta do trabalho com desinformação em larga escala. O entrevistado, um garoto de 19 anos muito esperto e inteligente, mostra sem pudores como produz e dissemina conteúdos falsos. Embora a tônica do documentário seja a de que fake news pode ser de esquerda ou de direita, o Veles boy não poupa crítica e deboche aos eleitores de Trump. Ele diz que o diferencial entre as mentiras de direita e as de esquerda, ao menos no contexto americanos EUA, está na adesão e no engajamento do público. “Os eleitores de Bernie Sanders têm pensamento crítico. Já os eleitores de Trump acreditam em qualquer coisa”, tira sarro o garoto. Detalhe: mesmo sem ser nativo no idioma inglês, o jovem macedônio consegue criar textos mentirosos que convencem o eleitorado norte-americano trumpista. Mérito do Veles boy ou demérito dos eleitores de Trump? (“Direto da Macedônia: ‘Ganhei dinheiro publicando notícias falsas’”, piauí)

“Rede de ódio” (2020). Para o crítico José Geraldo Couto, “não pode haver filme mais atual, especialmente para nós, brasileiros”, do que esta produção polonesa dirigida por Jam Komasa. O filme mostra como a desregulamentação das práticas de marketing digital e eleitoral possibilita que empresas e grupos ligados a essa atividade possam se valer das artimanhas mais antiéticas e mentirosas, gerando caos social e destruição. Mais do que isso, “Rede de Ódio” aborda como poucos aspectos psicológicos, mostrando o peso do rancor, do ressentimento, da sexualidade e da falta de autoestima na política. A narrativa gira em torno do jovem Tomasz Giemsa (Maciej Musialowski), uma espécie de sobrevivente neste mundo com o tecido social esgarçado pelas novas tecnologias. Tomasz é vítima e ao mesmo tempo algoz: é influenciado psicologicamente por suas interações nas redes e, como profissional de estratégias espúrias de marketing digital, torna-se um manipulador de pessoas tão ressentidas e outsiders quanto ele. A eleição em curso ajuda a mostrar a ascensão de tendências como xenofobia, racismo, homofobia e fascismo pelos meios digitais. (“A engrenagem do ódio”, Blog do Cinema)

“Contágio” (2011). Vista em tempos de coronavírus, esta produção norte-americana dirigida por Steven Soderbergh soa profética em alguns aspectos ao retratar uma pandemia fictícia que possui pontos semelhantes à situação que o mundo vive atualmente. Dentre eles, a chamada “infodemia”, a epidemia de informação, incluindo muita mentira e fake news. A ideia do filme parece ser mostrar que as informações falsas podem se replicar tanto quanto um vírus. A trama inclui um blogueiro metido a jornalista que propaga um falso remédio para a doença. Poderia se chamar cloroquina ou ivermectina, mas, na trama, recebe o nome de “forsítia”. Embora “Contágio” não mostre especificamente nenhum processo eleitoral, o filme entra em nossa lista justamente por conta do contexto pandêmico, que tem influenciado e sido influenciado pela política. Com certeza o problema da covid-19 terá protagonismo nas eleições municipais brasileiras. (“Contágio, o filme: profecias sobre a cloroquina e o (mau) uso da internet”, Direto da Ciência)

 

Livros

“A Morte da verdade: Notas sobre a mentira na era Trump” (Michiko Kakutani). Escrito pela jornalista norte-americana (de origem japonesa) Michiko Kakutani, com experiência de longos anos no “The New York Times”, esta é mais uma das obras que situam o ano de 2016 e a eleição de Trump como marcos do fenômeno da pós-verdade. Em um livro curto, Kakutani conseguiu condensar e, ao mesmo tempo, abordar com profundidade características como o enfraquecimento do conceito de fato, as guerras culturais, o tribalismo que enclausura cada vez mais os indivíduos em suas respectivas bolhas, o uso da ironia por parte dos políticos como forma de propagar inconsequências e preconceitos de forma descompromissada (na pior das hipóteses, basta depois dizer que foi mal compreendido) e, claro, a propaganda política flagrantemente mentirosa e seus “fatos alternativos”. A jornalista e escritora demonstra um desapreço especial pelo pós-modernismo e seus impactos filosóficos na percepção da realidade. Com uma minúcia digna de um bom trabalho de linguística, ela mostra como conservadores religiosos e extremistas de direita valeram-se de um mesmo modus operandi do discurso pós-moderno para legitimarem suas narrativas: “O argumento pós-moderno de que todas as verdades são parciais (e dependem da perspectiva de uma pessoa) levou ao argumento de que existem diversas maneiras legítimas de entender ou representar um acontecimento. Isso tanto encorajou um discurso mais igualitário quanto possibilitou que as vozes dos outrora excluídos fossem ouvidas. Mas também foi explorado por aqueles que quiseram defender teorias ofensivas ou desacreditadas, ou equiparar coisas que não podem ser equiparadas. Os criacionistas, por exemplo, reivindicaram que a teoria do “design inteligente” fosse ensinada junto com a teoria da evolução nas escolas. “Ensine as duas”, alguns sugeriram. Outros disseram: “Ensine a controvérsia”.

“Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais” (Jaron Lanier). O tecnólogo e filósofo da tecnologia Jaron Lanier é uma figura exótica e carismática. Com suas longas madeixas rastafari, ele percorre o mundo alertando sobre os riscos das redes sociais, que classifica como verdadeiras máquinas de mudança de comportamento e manipulação. Sem dúvida, Lanier entende do assunto, já que é cria do Vale do Silício, da geração de tecnólogos que ajudou a moldar as plataformas digitais que temos hoje, como Facebook e Twitter. Mas Lenier faz parte do time de tecnólogos que, apesar das boas intenções iniciais, perceberam que as consequências fugiram um pouco do controle. A propósito, Lanier é um dos profissionais a dar depoimento no documentário O dilema das redes, já sugerido aqui. Sua proposta, resumida no título do livro, parece radical. Afinal, será que conseguiremos deletar nossas redes sociais e viver mais offline? Mas Lanier diz que a ideia não é deletar nada para sempre, mas só por um tempo, para que as empresas responsáveis pelas plataformas digitais sejam forçadas a adotar uma postura mais ética e responsável. Dentre os problemas apontados pelo autor neste livro bombástico e por vezes desalentador, estão os modos como a inteligência artificial aprende com as tarefas dos seres humanos para, em seguida, torná-los obsoletos, ampliando o desemprego. E, claro, a política e as eleições não ficam de fora. O assunto é abordado principalmente no capítulo 9 – “As redes sociais tornam a política impossível”. Isso porque elas vão aos poucos erodindo os pressupostos comuns, distanciando as pessoas e dificultando o diálogo. Tendo em vista que a política é um espaço de luta, porém uma luta regrada, isso significa que para se fazer política é preciso estabelecer acordos e consensos, o que tem ficado cada vez mais complicado em tempos de tribalismo digital.

“Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news” (Matthew D’Ancona). O livro nos mostra como diversos pilares da democracia e modernidade, como mídia, ciência, universidades e instituições políticas, vêm sendo cada vez mais desacreditados. Ao mesmo tempo em que jornalistas são difamados, as mídias digitais favorecem o crescimento de teorias conspiratórias sem fundamento. Novamente, a eleição nos Estados Unidos e o plebiscito no Reino Unido, nos quais obtiveram êxito, respectivamente, Trump e o Brexit, são apontadas como ápice da era da pós-verdade. D’Ancona, jornalista britânico com passagem por veículos como The Guardian, The New York Times, Telegraph e The Times, ressalta que a mentira e o uso proposital da desinformação sempre existiram. A diferença agora é o engajamento do público, que, em parte desiste de procurar a verdade em meio a tantas mentiras, conformando-se em abraçar as narrativas que melhor se encaixam em suas visões de mundo e, também em parte, acredita piamente nas informações disponibilizadas em suas bolhas e tribos. Mais uma vez, nessa obra vemos o poder das novas tecnologias e das mídias sociais de manipularem, polarizarem e enraizarem opiniões.

“A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital” (Patrícia Campos Mello). Por fim, mas não menos importante, o recém-lançado livro da jornalista brasileira Patrícia Campos Mello tem o mérito de esmiuçar a situação do Brasil, com foco nas eleições de 2018. A autora tem larga experiência em cobertura política e mostra o quanto as mídias digitais ganharam espaço nas eleições da década passada para cá. O livro faz uma crítica não só às mentiras, mas às campanhas de difamação que se valem do discurso de ódio para desconstruir a imagem de jornalistas profissionais (e as mulheres jornalistas são um alvo ainda maior). Nesse aspecto, a obra ganha mais um trunfo, por seu cunho autobiográfico, já que a autora foi responsável pela primeira de uma série de reportagens sobre o financiamento de disparos em massa no Whatsapp e em demais redes de disseminação de notícias falsas, na maioria das vezes em benefício de Jair Bolsonaro. Desde então, ela se tornou alvo de uma pesada campanha de difamação arquitetada pelo chamado “gabinete do ódio” e por suas milícias digitais. Campos Mello discute de forma minuciosa os modos como líderes populistas (ou tecnopopulistas) se valem de seus exércitos de trolls e robôs para manipular grandes parcelas da população em redes sociais como Twitter, Facebook, Instagram e Whatsapp.

* Alexandre Campos é pesquisador em divulgação e política científicas, mestre em Mídia e Cotidiano (UFF), especialista em Comunicação Pública (UGF) e Sociologia Política (Ucam), graduado em Cinema/Audiovisual e Jornalismo (UFF) e graduando em História (UVA). Trabalha em gestão pública e na cobertura de políticas públicas há mais de 10 anos.

Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, cena do filme “Privacidade Hackeada”. Foto: Netflix/Reprodução.

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