Inpe lança painel ‘tira-teima’ sobre queimadas e desmatamentos na Amazônia

Nova funcionalidade na base de dados do instituto desmascara retórica que desvincula incêndios florestais de desmatamentos recentes.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Terça-feira, 17 de novembro de 2020, 13h27.

Agora está mais difícil negar que grande parte das queimadas na Amazônia acontecem em áreas de desmatamentos recentes. Neste ano, as repetidas afirmações do governo brasileiro de que os focos de incêndio na região se concentram em terrenos de desmatamentos consolidados, ou seja, ocupados pela agricultura, já haviam sido refutadas por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos. Agora, um novo painel de dados, anunciado ontem (segunda, 16) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), passou a cruzar mensalmente os dados dos seus sistemas que já monitoram queimadas e desmatamentos.

Já em sua estreia ontem, o novo painel destacou que quase metade (45,4%) das queimadas na Amazônia brasileira de agosto de 2019 a setembro deste ano aconteceram em áreas desmatadas desde 2018. Esse resultado desmente repetidasas declarações não só do presidente Jair Bolsonaro, mas também de seu vice, general Hamilton Mourão, de que quase todos focos de calor ocorrem em áreas com desmatamento consolidado. Na verdade, ambos se basearam em informação da Embrapa Territorial, que em um documento divulgado em julho deste ano, afirmou:

Arredondando, 90% das queimadas detectadas em 2019 ocorreram em locais já desmatados e estão associadas ao uso do fogo na agropecuária por produtores pouco tecnificados.
(“90% dos focos de incêndio na Amazônia em 2019 ocorreram em locais já desmatados, diz Embrapa”, Eduardo Rodrigues & Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo)

 

Combustível para queimadas

Na verdade, a reincidência neste ano de grandes incêndios florestais, e com maior intensidade do que no ano passado, já havia sido prevista para as áreas recém-desmatadas em um estudo da ONG Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) publicado em maio deste ano no periódico Flora (“Amazon wildfires: Scenes from a foreseeable disaster”).

“Quando a estação seca chegar à Amazônia, essas árvores derrubadas vão virar combustível para queimadas. Esse foi o ingrediente principal da temporada de fogo de 2019, uma história que pode se repetir em 2020 se nada for feito para impedir”, explicou a pesquisadora Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam e autora principal do estudo.

Em agosto, após a repercussão da alegação da Embrapa Territorial, o Ipam divulgou a nota técnica “Amazônia em chamas 5: o que queima, e onde”, na qual os pesquisadores Ane Alencar, Lucas Rodrigues e Isabel Castro destacaram que

Entre 2016 e 2019, cerca de 64% em média dos focos de calor foram detectados em áreas recém-desmatadas ou já convertidas para uso agropecuário, sendo que 22% dos focos estavam diretamente relacionados a desmatamento recente.

Na nota, os pesquisadores também fizeram recomendações como

É preciso que multas ambientais voltem a ser aplicadas, as áreas invadidas e desmatadas ilegalmente sejam embargadas, os equipamentos usados em atividades ilegais, destruídos e as grandes quadrilhas ligadas à exploração ilegal da terra, desmanteladas. O ataque forte à grilagem reduziria pela metade o desmatamento e o fogo na região.

Também em agosto, Douglas Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas da agência espacial dos Estados Unido, a Nasa, em entrevista à TV Globo, associou as queimadas na Amazônia ao desmatamento da floresta. Segundo ele, os incêndios ocorrem em troncos de árvores expostos ao sol após as derrubadas (“Cientista da Nasa relaciona queimadas na Amazônia com maior desmatamento”).

Os dados disponibilizados desde ontem pelo novo painel – incorporado à plataforma Terra Brasilis – reforçam os pontos levantados nos documentos do Ipam e na entrevista de Douglas Morton. Com essa nova funcionalidade, o Inpe deu um passo decisivo para combater iniciativas de fake news e de negacionismos relacionados à devastação da Amazônia.

Leia também:

Na imagem acima, página inicial da plataforma Terra Brasilis, do Inpe. Foto: Reprodução.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

Um comentários;

  1. Pingback: Queimadas na Amazônia: dados do INPE contradizem Bolsonaro - ClimaInfo

*

Top