Os fatos, os cientistas e o ministro do Meio Ambiente

Tentativas de intimidação a pesquisadores não vão ocultar o quadro atual de ações que reduzem a cinzas o capital natural brasileiro e colocam o país na retaguarda da conservação ambiental.

COLETIVO DA COALIZÃO CIÊNCIA E SOCIEDADE*
especial para Direto da Ciência.**

Sexta-feira, 27 de novembro de 2020, 7h30.


Uma matéria recente informa que o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) ajuizou, com apoio da Advocacia Geral da União (que deveria atuar na defesa dos interesses do Estado brasileiro), interpelações judiciais contra quatro pessoas na Justiça Federal em razão de textos críticos sobre a sua gestão no ministério. Entre os alvos está o cientista Antônio Donato Nobre, pesquisador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Desde o início de sua cruzada antiambiental à frente do Ministério do Meio Ambiente, o ministro Ricardo Salles vem questionando sem fundamentos não somente dados técnicos e científicos, mas também as instituições e os pesquisadores responsáveis pela geração e divulgação do conhecimento científico. A negação da ciência agrava a aguda crise decorrente de uma gestão baseada na desconstrução da governança, das salvaguardas e do controle social sobre a área de meio ambiente.

A interpelação do pesquisador Antônio Donato Nobre decorre de uma declaração sobre um fato público e notório, a condenação do ministro Salles por improbidade administrativa. Assim, serve somente aos propósitos pouco democráticos de intimidação e de rejeição a críticas.

Embora já esteja há quase dois intermináveis anos no Ministério do Meio Ambiente, o ministro Salles parece refratário a algumas lições importantes que aqui destacamos.

  1. O Brasil conta com sólida comunidade científica na área ambiental que colocou o país entre os principais geradores de conhecimento sobre o tema. Essa comunidade forma redes de colaboração com fortes interações entre instituições nacionais e com cientistas em todas as partes do mundo. Ou seja, os dados e o conhecimento continuarão sendo produzidos e divulgados.
  2. A maior parte da ciência brasileira é produzida em instituições públicas. Assim, nossos pesquisadores, que são servidores públicos, servem à sociedade brasileira e são comprometidos com os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
  3. Vivemos em um mundo conectado por relações comerciais, políticas, sociais e por tecnologias. O que acontece no Brasil não fica no Brasil e tem consequências.

Tentativas de intimidação a pesquisadores não vão ocultar o quadro atual de ações que reduzem a cinzas o capital natural brasileiro e colocam o país na retaguarda da conservação ambiental (a exemplo da obstrução que o Brasil levantou nas negociações no âmbito da Convenção de Diversidade Biológica). Os cientistas brasileiros continuarão cumprindo sua missão de avaliar os fatos e dar publicidade aos resultados, em prol da melhoria de condições de vida e da conservação de nossas opções de futuro.

* A Coalizão Ciência e Sociedade congrega cientistas de instituições ensino e pesquisa em todas as regiões do Brasil.

** Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

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