Grandes incêndios ameaçam florestas ripárias nas savanas brasileiras

Vegetação que margeia rios e córregos reduz erosão do solo, mantém qualidade da água e alimenta grandes reservatórios.

BERNARDO M. FLORES
MICHELE DE SÁ DECHOUM
ISABEL B. SCHMIDT
MARINA HIROTA
RAFAEL S. OLIVEIRA
ANNA ABRAHÃO
Especial para Direto da Ciência*
Segunda-feira, 14 de dezembro de 2020, 6h30.

Grandes incêndios são cada vez mais comuns em savanas tropicais, como o Cerrado e o Pantanal. Novas descobertas científicas revelam que esses incêndios podem representar uma ameaça aos sensíveis ecossistemas de floresta ripária, a vegetação localizada ao longo de rios e córregos.

Em outubro de 2017, um grande incêndio se espalhou pelas savanas do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, queimando mais de 86 mil hectares de vegetação nativa e preservada (80% da área original do parque).

Agora, um estudo publicado na revista britânica Journal of Applied Ecology mostrou que esse grande incêndio causou uma alta mortalidade de árvores em algumas florestas ripárias do parque. “Para nossa surpresa, as florestas mais impactadas foram aquelas que inundam durante a estação chuvosa”, explica Bernardo Flores, primeiro autor do artigo “Tropical riparian forests in danger from large savanna wildfires”.

Em algumas florestas, o incêndio causou um impacto leve, mas em outras o incêndio foi destrutivo, matando quase todas as árvores e permitindo que gramíneas invasoras e outras plantas oportunistas, como cipós e samambaias, em poucos meses começassem a dominar o ecossistema. O incêndio também liberou nutrientes da floresta sobre o solo, que agora ficarão expostos a erosão.

O estudo surgiu de uma demanda dos gestores do parque, preocupados com os impactos do incêndio de 2017, e envolveu a colaboração de 20 cientistas de diferentes instituições brasileiras e internacionais. Primeiro, os autores usaram imagens disponíveis pelo Google Earth para quantificar a perda de cobertura florestal na paisagem entre 2003 a 2019, em uma área de 90 hectares. As imagens de satélite foram comparadas com dados de campo, coletados em 36 florestas espalhadas pela paisagem queimada, incluindo informações detalhadas sobre todas as árvores, plantas herbáceas e o solo.

Floresta queimada severamente ao lado de outra não queimada no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Foto: Bernardo Flores. Floresta queimada severamente ao lado de outra não queimada no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Foto: Bernardo Flores.

 

Importância ambiental

A floresta ripária é um habitat vital para grandes animais, como as onças, pois servem de abrigo em meio às savanas abertas. Quando incêndios reduzem a cobertura dessas florestas, eles podem desequilibrar cadeias alimentares e gerar efeitos em cascata, alterando ecossistemas inteiros. Além disso, essas florestas reduzem a erosão do solo, mantendo a qualidade da água que flui pelos riachos e alimentam grandes reservatórios de água do Brasil.

No entanto, Rafael Oliveira, co-autor do artigo, explica que “a governança ambiental do Brasil tem enfraquecido nos últimos anos, resultando num aumento de focos de incêndio”. A expansão da agropecuária vem permitindo que gramíneas invasoras se espalhem, tornando as paisagens mais inflamáveis. Com as mudanças climáticas, secas extremas estão deixando as savanas tropicais ainda mais vulneráveis a grandes incêndios com impactos catastróficos que podem persistir por décadas.

“Agora, queremos monitorar se essas florestas serão capazes de recuperar ao estado original, ou se ficarão aprisionadas em um estado de vegetação aberta”, conta Bernardo Flores.

A perda dessas florestas ripárias pode ter consequências negativas para a fauna e o equilíbrio ecológico do parque, e para o abastecimento de água na região. Os resultados do estudo também ajudarão nas estratégias de manejo do fogo nessas paisagens, visando manter as florestas ripárias mais resilientes no futuro.

BERNARDO M. FLORES é pesquisador colaborador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). mflores.bernardo@gmail.com
MICHELE DE SÁ DECHOUM é professora da UFSC, onde é coordenadora do Laboratório de Ecologia de Invasões Biológicas, Manejo e Conservação (Leimac). michele.dechoum@ufsc.br
ISABEL B. SCHMIDT é professora da Universidade de Brasília (UnB). isabelbschmidt@gmail.com
MARINA HIROTA é professora da UFSC. marinahirota@gmail.com
RAFAEL S. OLIVEIRA é professor da Unicamp. rafaelsoliv@gmail.com
ANNA ABRAHÃO é pós-doutoranda na Universidade de Hohenheim (Alemanha). anna.abrahao@gmail.com
Na imagem no alto, paisagem queimada após o incêndio de 2017 no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Foto: Fernando Tatagiba.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


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