A negação por ofício e o desastre por resultado

Sem um plano para a crise de saúde, sem qualquer base para um processo consequente de retomada econômica, o país se vê à deriva.

COALIZÃO CIÊNCIA E SOCIEDADE*
especial para Direto da Ciência.**
Terça-feira, 19 de janeiro de 2021, 7h58

A Coalizão Ciência e Sociedade se une a amplos segmentos da sociedade brasileira em solidariedade à população amazonense, vítima de uma tragédia anunciada e que poderia ter sido, em grande parte, evitada.

A negação dos fatos, das evidências científicas e do bom senso, junto com a incompetência em resolver até questões corriqueiras, são marcas indeléveis de gestores e seus auxiliares no governo brasileiro. Esses gestores se tornam, portanto, corresponsáveis pelos desastres que induziram ou que agravaram, da aniquilação de extensões gigantescas dos ecossistemas brasileiros e nosso capital natural à dor que causam às famílias dos mais de 200 mil brasileiros vítimas da Covid-19 e daqueles que ainda precisarão viver com suas sequelas por tempo indeterminado. Aliás, esses dois desastres agravam-se mutuamente como uma verdadeira sindemia.

O despreparo, a má fé e o patológico viés ideológico geraram um quadro caótico de desorganização e incertezas quanto a um urgentíssimo Programa Nacional de Imunização contra a Covid-19. O uso emergencial de vacinas não é um processo qualquer que admita uma tramitação burocrática de rotina. Afinal, é claramente uma emergência perante a qual o mundo inteiro está se mobilizando.

Enquanto isso, o Ministério da Saúde pressionava médicos a utilizar ditos tratamentos precoces comprovadamente sem eficácia para a doença e com potenciais efeitos colaterais. Apesar da esperança com o início da aplicação da vacina Coronavac, não se vislumbra, até o momento, iniciativas robustas, consistentes e coordenadas que inspirem uma resposta coletiva da sociedade brasileira para adotar as indispensáveis condutas preventivas e se vacinar, quando as vacinas se tornarem amplamente disponíveis.

Ainda hoje, quase um ano após o início da pandemia, seguimos sem qualquer planejamento consistente na área educacional e sem ações que permitam a retomada responsável das atividades nas escolas e a recuperação de milhares de crianças e jovens que foram alijados do processo educacional. Esses estudantes são mantidos à margem ou excluídos dos processos emergenciais no âmbito da educação à distância e continuam vítimas de uma educação sem a qualidade desejada pela sociedade.

Com a ciência brasileira mobilizada para gerar e desenvolver respostas às crises sucessivas em que estamos mergulhados, e na contramão de qualquer processo consequente de retomada econômica, o governo federal vetou a proibição do contingenciamento dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), principal instrumento de fomento da ciência, tecnologia e inovação do país. Se o veto não for revertido pelo Congresso Nacional, e outros recursos federais e estaduais de fomento seguirem sendo cortados ou contingenciados, a ciência brasileira seguirá numa espiral de desconstrução vertiginosa. Sem ciência, qual será a nossa capacidade de achar soluções para os problemas do país?

Sem um plano para enfrentamento da crise de saúde, sem oferecer qualquer base para um processo consequente de retomada econômica, o país se vê à deriva. Pior que isso, se vê acuado diante das ameaças de perdas econômicas em consequência da ausência de uma política ambiental digna desse nome.

Não há políticas públicas que resistam à falta de espírito público e ética. No vácuo de uma liderança digna, é hora de outros poderes legalmente constituídos, organizações da sociedade civil e do setor empresarial exigirem que o governo assuma, por fim, suas responsabilidades intransferíveis e, em paralelo, atuem incisivamente no avanço de qualquer solução adicional ou complementar. Só assim, por meio da convergência de esforços, será possível restituir alguma esperança aos brasileiros e dar um rumo claro ao país.

* A Coalizão Ciência e Sociedade congrega cientistas de instituições ensino e pesquisa em todas as regiões do Brasil.
O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em entrevista coletiva no Instituto de Traumatologia e Ortopedia (Into) no Rio de Janeiro, em 17/jan/2021. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

** Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


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