O Conselho Federal de Medicina precisa respeitar a ciência

Ao apontar uma suposta controvérsia científica sobre o tratamento precoce, presidente do CFM usa a mesma tática dos negacionistas da mudança climática ou da evolução.

LEANDRO TESSLER
LUÍS FERNANDO TÓFOLI

Publicado originalmente pela Agência Bori.*
Sexta-feira, 29 de janeiro de 2021, 7h16.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) tem como função fiscalizar e normatizar a prática médica no Brasil. Em outras palavras, proteger a população de más práticas e de charlatanismo. Foi por isso uma surpresa ler as opiniões de seu presidente, Dr. Mauro Luiz de Britto Ribeiro, em artigo na seção Tendências/Debates da Folha de S.Paulo de segunda-feira (25). Em lugar de defender a medicina baseada em evidências em favor dos pacientes, o texto ataca cientistas para defender a autonomia médica.

Tal autonomia, desde que embasada no consenso científico, nunca foi contestada. Por outro lado, parece óbvio que o CFM tomaria medidas enérgicas se os médicos, dentro de sua autonomia, prescrevessem chá de boldo, sanguessugas ou cannabis para tratar Covid-19. A autonomia tem limites, e o CFM deveria determinar esses limites para proteger a sociedade.

O texto demonstra pouco contato com a prática científica. Ele desqualifica cientistas não-médicos como se só os médicos fossem capazes de entender evidência científica. Médicos não são cientistas. Como afirmou em entrevista recente na Folha de S.Paulo o presidente da Associação Médica Brasileira, Dr. César Fernandes, médicos que prescrevem tratamento precoce agem movidos por suas convicções pessoais, ignorando os melhores estudos e o consenso da área. Em respeito aos pacientes, a formação do médico deveria sempre ser norteada pela ciência.

Ao apontar uma suposta controvérsia científica sobre o tratamento precoce, o artigo usa a mesma tática dos negacionistas da mudança climática ou da evolução. Isso pode causar dúvida no público leigo, mas entre os pesquisadores não existe controvérsia alguma.

A melhor evidência científica disponível não indica que tratamentos precoces baseados em cloroquina, ivermectina ou nitazoxanida sejam eficazes para o tratamento da Covid-19. Por isso eles não estão aprovados ou indicados por agências reguladoras e sociedades médicas de vários países, inclusive o Brasil.

Isso não significa que tratamentos experimentais não possam ser usados em condições especiais, mas, uma vez estabelecida a ausência de efeito, eles precisam ser abandonados. Por outro lado, se evidências convincentes de efetividade vierem a surgir, os consensos podem mudar. Assim é a ciência, sempre pronta para absorver conhecimento novo.

O próprio proponente da cloroquina contra Covid-19, Prof. Didier Raoult, recentemente admitiu falhas metodológicas graves em seu estudo. Mas ele só o fez porque foi contestado pelo conselho médico local.

O artigo do presidente do CFM ainda acusa os opositores de serem ‘ideológicos’. Este argumento é também falacioso e negacionista. Ao se calar diante dos desatinos do governo federal na gestão de uma pandemia sem precedentes, o conselho assume um silêncio ideologicamente gritante. Um CFM interessado em proteger a população já teria se manifestado em relação ao presidente Bolsonaro e o ministro Pazuello (que não são médicos) recomendarem tratamento precoce e gastar recursos públicos para promovê-lo.

A boa medicina deve sempre estar baseada no melhor conhecimento científico. Um órgão regulador da classe médica primariamente interessado em cumprir suas funções já teria revogado – ou, ao menos, atualizado – o parecer de abril de 2020 que dá autonomia ao tratamento precoce. Insistir em tratamento sem evidência científica poderá custar ainda mais vidas de muitos brasileiros.

LEANDRO TESSLER é professor do Instituto de Física Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
LUÍS FERNANDO TÓFOLI é professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, ilustração United Nations/Unsplash.

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3 Comentários

  1. Vinícius M. Kern said:

    Busquei aqui as evidências de que há consenso científico da inefetividade ou risco de uso dos compostos do “””tratamento precoce”””. Esperava encontrar, sei que há, mas não achei. Talvez eu esteja querendo demais. Isso é algo que me incomoda bastante – depender da crença na autoridade da fonte (pessoa) e não do argumento (estudo, artigo…). Ler material de fonte honesta mas baseada em autoridade pessoal (como D. Varela, por exemplo) e não em evidência expressa (como faz A. Iamarino, por exemplo). “Crê ni mim”.
    É que precisei apontar essas evidências numa conversa. Não que negacionistas se importem com evidências…

  2. José Veríssimo said:

    É interessante observar que nos inícios da pandemia quando o Ocidente desde Mandetta até Spahn (ministro da saúde na Alemanha), passando pelo francês Véran, e por chefes de Estados, diziam que a máscara não era necessária e que bastava lavar as mãozinhas(provavelmente pensavam que japoneses, vietnamitas, coreanos, “chinos” et alii, não passavam de desinformados)… e aí não se viram manifestações de nossos infectologistas, cientistas…ficaram silentes…hoje se atentassem para a qualidade das máscaras e de seu manuseio…dariam uma grande contribuição…quantas centenas de milhares de pessoas morreram pela vocação de comer moscas de nossas celebridades científicas…que seguem orgulhosas e sem culpa?

  3. José Veríssimo said:

    É preciso observar que a construção de consensos científicos tem seus níveis nacionais….e isso é absolutamente normal… que culturas diferentes…avaliem em tempos diferentes e de forma eventualmente diferente os dados…Para além disso, há a liberdade no ato médico…que é desrespeitada pela imposição genérica de um medicamento ou pela imposição genérica de sua não aplicação…essa imposição genérica é um risco ao desenvolvimento livre da sociedade…não é à toa que países que têm sua medicinas tradicionais, como a China e a Índia, olhem um pouco menos rigidamente a questão a favor ou contra desse medicamento…e nem por isso devem ser declarados malsucedidos. Aliás, esse países colocam um elevado numero distinto de drogas no combate à covid…Lembremos que o FDA libera os opióides certo de que o faz na mais pura evidência científica…Enfim, seria importante despolitizarmos o favor… e o contra nesse momento…

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