Resposta de Mario J. A. Saad, professor da Unicamp

Mensagem enviada para o editor de Direto da Ciência em 24/5/2016 por e-mail por Mario José Abdalla Saad, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.
(Complemento do post “Quantas Marianas serão necessárias para o novo ministro das Minas e Energia?”, de 24/5/2016.)

Há dois anos, quando iniciava os preparativos para me candidatar a reitor da Unicamp (fui o candidato derrotado em 2013, mas por uma margem pequena de votos), começaram a aparecer nas revistas Diabetes, Plos One, Plos Biology e Diabetologia denúncias anônimas apontando erros em figuras de nossos papers. Informo que tenho 250 papers publicados e aparentemente todos foram checados à procura de erros.  As revistas me consultaram inicialmente, e enviei, a todas que solicitaram, os dados originais, mostrando que 90% das denúncias eram falsas, i.e. não havia erro algum, e em poucas situações o que havia eram erros de editoração. Esses erros de editoração foram assumidos e sugerimos às revistas corrigi-los com erratas simples. Para exemplificar o que estou chamando de erros de editoração informo que alguns de nossos trabalhos têm 16 figuras com 20 a 30 blots cada figura. No momento de montagem dessas figuras, a troca de um ou outro blot pode eventualmente ocorrer, e nós admitimos que em poucas situações essa troca inadvertida ocorreu mesmo,  mas o mais importante é que esses pequenos erros não influíram em nada nos resultados ou na interpretação dos resultados. Os denunciantes queriam transformar esses pequenos erros em manipulação de imagens e fraude, e assim poder me difamar. Nesse sentido, algumas revistas solicitaram investigação à Universidade e assim a Universidade procedeu, inclusive com uma comissão de cientistas externos à Unicamp, e com pesquisadores do exterior. As conclusões foram unânimes em dizer que a maior parte das denúncias era mesmo falsa, e que os pequenos erros eram involuntários, não afetaram os resultados e poderiam ser corrigidos com erratas ou corrigendum. Todas as conclusões das comissões mostram que nunca houve manipulação de imagem ou fraude, e que os artigos são íntegros cientificamente. Todos os artigos retratados são completamente reprodutíveis e foram citados centenas de vezes na literatura, confirmando a veracidade dos resultados. Entretanto, a revista Diabetes não aceitou o parecer da Universidade (mesmo o parecer com pesquisadores do exterior) e numa atitude unilateral e autoritária resolveu retratar três artigos que sou o responsável, mesmo que um deles não contenha nenhum erro como demonstrado em duas comissões de investigação. Após essa atitude do Diabetes, outras revistas que já tinham aceitado fazer as pequenas correções voltaram atrás e agora querem retratar mais alguns artigos. Esse é o caso da revista Plos Biology, que com o parecer completamente favorável da Universidade, inicialmente aceitou uma errata.  Entretanto, após as retratações do Diabetes, os editores voltaram atrás e agora argumentam  que há mais que um erro ( dentre os 300 blots do artigo) e que embora os resultados sejam cientificamente corretos, o melhor é retratar. Não há alternativas a não ser aceitar a decisão da revista. Entretanto, faço questão de destacar que essa atitude extremamente rigorosa dos editores das revistas Diabetes e Plos tem sido tomada só com pesquisadores que trabalham fora dos EUA. Erros similares são comuns em trabalhos de pesquisadores americanos e a conduta quase sempre é aceitar correção. É minha impressão que meus adversários fazem essas denúncias e pressionam os editores para tomar uma atitude radical de retratação, e querem usar a retratação como sinônimo de fraude. Frente a essa situação decidi não mais me candidatar a reitor, e prosseguir com minha carreira científica. Deixemos a política fora da ciência. Espero assim que se reduza a pressão sobre as revistas, e que haja bom senso do lado dos editores entendendo que pequenos erros de editoração podem acontecer, e o correto é corrigi-los com erratas e não retratar um paper completo que apresenta resultados e conclusões corretas. Os jornais e os jornalistas sempre nos ensinaram que pequenos erros podem e devem ser corrigidos, e que não há necessidade de se difamar pessoas por pequenos erros humanos.

(Mario José Abdalla Saad)

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