Carta da ABC e da SBPC ao governo Temer deixa a desejar*

MARIO NOVELLO,
Especial para o Direto da Ciência**

Li com atenção o documento “Em defesa de uma política de Estado para a ciência, a tecnologia e a inovação”, de 6 de maio de 2016, tornado público pelos responsáveis pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Em um primeiro momento, pensei que iria ler um manifesto de cientistas comprometidos com a função nobre que, como reza a lenda, amam a verdade e produzem conhecimento para a evolução espiritual e material da sociedade como um todo.

No entanto, aquela carta deixa a desejar, pois dá a impressão de que os cientistas estão interessados prioritariamente, ou mesmo unicamente, a pensar em administrar suas verbas, venham elas de onde vierem e sob qualquer forma.

O texto termina afirmando que “A ABC e a SBPC sempre estiveram e continuarão abertas para colaborar na construção de uma Política de Estado para apoiar o avanço da Ciência, da Tecnologia e da Inovação Tecnológica no Brasil”.

Esse apoio é total e irrestrito? Qualquer que seja o governo? Legitimo ou não?

A leitura daquela carta, explicitando a posição oficial daquelas entidades, levou-me a pensar que a crítica de Wanderley Guilherme dos Santos aos cientistas (“A xepa do golpe”, blog Segunda Opinião, 16/5) consistiria em uma argumentação pertinente quando afirma que “um contingente de xepeiros recrutará cientistas aborrecidos com a incorporação do antigo ministério ao atual remanso das Comunicações, mas satisfeitos se o responsável pela nova Secretaria for escolhido por indicação de respeitáveis Associações. Cada um por si, deixando que os evangélicos negociem por todos com Deus”.

Estamos “aborrecidos”? É essa a imagem que nossas sociedades cientificas mais em evidência querem fazer passar para o governo, qualquer que seja ele?

Parece-me, e a muitos companheiros cientistas, que, considerando que o atual presidente interino não foi eleito, ele não tem o respaldo dos brasileiros nem a autoridade moral para tomar decisões tão importantes que afetem o futuro da nação, como, por exemplo, a diminuição do papel da ciência no panorama político brasileiro.

MARIO NOVELLO é professor emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
(CBPF), no Rio de Janeiro, onde obteve o título de mestre em 1968. Concluiu seu
doutorado em 1972 na Universidade de Genebra, na Suíça. Em novembro de 2010 foi
homenageado pela comunidade científica internacional com o I Symposium Mario
Novello on Boucing Models. Escreveu, entre outros livros, “O que é Cosmologia?”
(Zahar), no qual indica a função da cosmologia como uma refundação da física.

Na imagem acima, o vice-presidente em exercício Michel Temer (PMDB-SP) durante cerimônia de posse aos ministros de seu governo, no Palácio do Planalto, em Brasília, no dia 12 de maio. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.


* Título corrigido em 20/5. A menção à “fusão de ministérios” no título original “Carta da ABC e da SBPC a fusão de ministério no governo Temer deixa a desejar” foi erro de responsabilidade exclusiva do editor de Direto da Ciência, e não do autor do artigo.
**Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


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7 Comentários

  1. Felipe said:

    O pastor não entrou no ministério, mas colocar 2 Engenheiros civis para a tecnologia. Podiam ‘variar” as Engenharias. Este Ministro estava no Ministério das Cidades, que tem mais de “Arquitetura e Engenharia Civil” (Projetos de Urbanização, melhorias para as cidades). Para o ministerio de Ciências Tecnologia e Informação, o cara deveria ter algo pelo menos algo de Fisico, Ciência da Computaçao, Sistemas de Informação, Eletrônica, Telecominicação.

  2. Claudio Oliveira Egalon said:

    Gostaria de esclarecer três fatos importantes sobre a carta da ABC e da SBPC:

    1. Esta carta está datada no dia 6 de maio.
    2. Esta data é **anterior** à divulgação da fusão entre o MCTI e o MC, que ocorreu no dia 11 de maio, não podendo, desta forma, ter nenhuma crítica explícita contra a presente fusão e
    3. Esta data é **posterior** à divulgação da suposta entrega da liderança do MCTI ao representante Evangélico Criacionista, divulgada no dia 2 de maio.

    Desta forma, a carta não poderia criticar a fusão entre os dois ministérios, já que a mesma ainda não tinha sido divulgada. Porém ela poderia ter criticado, pelo menos de forma severa, a intenção do governo de entregar a liderança do ministério a um representante religioso, pseudo-científico e Criacionista. Por que eles deixaram de fazer isso, me escapa a compreensão.

    • Maurício Tuffani said:

      Prezado Cláudio,
      a menção à fusão dos ministérios está apenas no título e foi erro de responsabilidade exclusiva deste editor. Já foi removida no mesmo dia de seu comentário (ontem, sexta-feira, 20/5), às pressas, por celular, e devidamente reconhecida e registrada no próprio post hoje (sábado, 21/5).
      Agradeço pelo aviso.
      Maurício Tuffani

  3. Claudio Oliveira Egalon said:

    Aliás, eu meu pergunto aqui com os meus botões: por que decidiram fundir o MCTI com o Ministério das (Tele)Comunicações? Teria isso, alguma coisa a ver com o programa de intercepção de comunicações do NSA (o National Security Agency, Agência Nacional de Segurança) dos Estados Unidos? Estão querendo agora subjugar a Ciência brasileira ao aparato de espionagem Americano? Ou, pior ainda, subjugar a nossa Ciência ao complexo industrial militar Americano?

    Não é a toa que é quase impossível de se obter financiamento para pesquisas com fins produtivos nos Estados Unidos: tudo está sendo canalizado para programas secretos. A situação é tão crítica que o próprio Departamento de Defesa dos Estados Unidos, DOD, Departament of Defense, está considerando obter dinheiro de outros países para financiamento de suas pesquisas militares. Em troca, os Estados Unidos colocariam à disposição as velhas tecnologias já desenvolvidas enquanto que o Tio Sam criaria armas mais sofisticadas e poderosas que ficariam sob a tutela de nossos irmãos do norte. Não tenho nada contra isso desde que este tipo de pesquisa fôsse uma atividade produtiva: algo que não é! E como toda atividade improdutiva, além de ser caríssima e destrutiva, ela cria um buraco negro que suga recursos de outras áreas resultando no tremendo gargalho de financiamento para pesquisa nos Estados Unidos.

    Daí não entender porque a ABC e a SBPC não articularam uma posição mais clara através deste caminho que acabei de desbravar. E tampouco entendo por que eles emitiram uma nota tão tépida em relação ao absurdo de se colocar um Bispo Criacionista no controle do MCTI. Obviamente não é só governo Temer que está tendo problemas de se legitimizar perante a população brasileira mas, também, as duas organizações de Ciências mais influentes do Brasil!

  4. Renato said:

    Esta carta é medíocre. É realmente inacreditável que os presidentes das duas organizações de ciência mais importantes do Brasil tenham escrito um documento “chapa branca”, que não apresenta indignação alguma, protesto contundente, e não convida os pesquisadores a protestarem contra esta arbitrariedade do presidente interino Michel Temer. Na época da ditadura militar, quando havia a repressão que não existe hoje, os manifestos eram muito mais significativos. Não eram uma carta que mais parece de uma conversa de comadres.

  5. Claudio Oliveira Egalon said:

    Concordo com o Mário Novelo quando ele se diz que a carta deixa muito a desejar: o documento trata-se simplesmente de um emaranhado de idéias sem qualquer nexo. Não tem absolutamente nada de novo e tampouco advoga alguma ideia concreta: apenas algo muito abstrato que ninguem consegue ver. Por mim, um estudante de Física do primeiro ano poderia ter escrito algo melhor. Fico imaginando porque a SBPC e a ABC gastaram tanto tempo para produzir e divulgar um documento de baixissima qualidade que apenas adiciona ao besteirol de idéias. Aparentemente os responsáveis pela carta já pararam de pensar ha muito tempo!

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