Vacina da tuberculose é testada em profissionais da saúde contra Covid-19

Se comprovada a eficácia, a BCG pode se tornar um trunfo das equipes de saúde em uma possível nova onda da pandemia.

CÍNTHIA LEONE
Sexta-feira, 15 de maio de 2020, 8h42.

A comunidade científica reagiu de maneira crítica em março quando um preprint – um artigo em fase preliminar à publicação em periódico – no repositório medRxiv afirmou que países que aplicam universalmente a vacina BCG (bacilo Calmette-Guérin), que combate a tuberculose, têm menos mortalidade por Covid-19.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a emitir um comunicado no começo de abril dizendo que não há comprovação dessa hipótese. Um estudo iniciado na Austrália e estendido para a Espanha e a Holanda pode ser o primeiro a dar respostas mais conclusivas sobre o tema ao testar 10 mil trabalhadores da saúde nos três países.

A partir das informações preliminares desse estudo, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanon Ghebreyesus, o líder do experimento, Nigel Curtis, além de outros dois pesquisadores envolvidos – Annie Sparrow e Mihai Netea – publicaram em 30 de abril um texto conjunto na revista The Lancet. Nele, os cientistas reconhecem o potencial da BCG para atenuar os impactos da pandemia de coronavírus, mas alertam para os riscos, sobretudo o de desabastecimento.

A cautela é justificada. Quando um manuscrito preliminar sugeriu o uso da hidroxicloroquina no tratamento da enfermidade, houve escassez do medicamento, que é usado no tratamento de doenças graves, como malária, lúpus e artrite reumatoide. Um comportamento semelhante em relação à BCG seria desastroso, já que a vacina é parte crucial da política de combate à mortalidade infantil em países pobres, alerta o artigo da Lancet.

A ampliação da pesquisa australiana, que até abril vacinou randomicamente 2.500 profissionais do país – metade deles com a vacina para tuberculose, metade com placebo –, foi possível devido à doação de 10 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 38,1 milhões) da Fundação Bill & Melinda Gates. Com 7 mil casos e 97 mortes, a Austrália conteve a doença com uma política estrita de isolamento social. Os pesquisadores avaliaram que seria necessário, então, realizar o experimento com uma população mais exposta à doença.

 

Estudo brasileiro

A relação entre a BCG e a Covid-19 também é investigada no Brasil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com recursos do Ministério da Ciência Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) no valor de R$ 600 mil. Sob a coordenação da pneumologista Fernanda Mello, o ensaio clínico nacional deve revacinar (por que já foram vacinados ao nascer) randomicamente (com BCG ou placebo) mil funcionários de hospitais do Rio de Janeiro e do Amazonas.

A pneumologista Ana Paula Santos, que trabalha diretamente no tratamento de pacientes da Covid-19 em UTIs e é membro da equipe, afirma que os profissionais de saúde foram escolhidos porque o grupo pode ser facilmente acompanhado pelos estudiosos. “E se a hipótese for verdadeira, estamos oferecendo também proteção a esses trabalhadores essenciais que estão mais expostos ao vírus.”

O trabalho ainda aguarda aprovação do Comitê Nacional de Ética em Pesquisa, e se as autorizações saírem no prazo previsto, o recrutamento dos voluntários começa em junho. O estudo recebeu autorização do Ministério da Saúde para solicitar as 500 doses extras de BCG que serão usadas no experimento, um controle necessário para garantir que a imunização obrigatória dos recém-nascidos continue abastecida.

 

Vacina viva

“Não é de hoje que são observados efeitos da BCG na imunidade e no controle inflamatório”, explica Santos. “Chamamos isso de resposta heteróloga, um efeito contra enfermidades além daquela para a qual a vacina foi desenvolvida”. A médica cita a redução da mortalidade infantil de modo geral, diminuição de contágio por hanseníase e varíola, melhora da resposta imunológica em infecções por HPV e febre amarela e controle da inflamação no tratamento de câncer de bexiga.

Essa resposta heteróloga se deve a duas capacidades que a vacina parece ter: controlar a resposta inflamatória do organismo e diminuir a replicação do vírus. No caso da Covid-19, essa ação pode prevenir casos graves da doença, quando o vírus produz uma resposta inflamatória desorganizada, apelidada pelos cientistas de ‘tempestade de citocinas’.

Isso ocorre porque a BCG é diferente da maioria das vacinas: ela é feita de uma bactéria viva atenuada. Por isso, costuma gerar uma reação na pele, que pode deixar uma cicatriz que a maioria dos brasileiros leva no braço. Ao contrário de outras imunizações, ela não vale para toda a vida – seu efeito passa a contar de três a seis meses a partir da aplicação, e em adultos tem apenas 50% de eficácia contra a tuberculose, sendo que a reaplicação não é eficaz para evitar a doença. Também há diferenças de desempenho entre as diversas cepas de BCG – o Brasil é o único que utiliza a Moreau-Rio de Janeiro, produzida nacionalmente desde 1927.

 

Comparação entre países

Mapa interativo do site The BCG World Atlas. Imagem: Reprodução.

Por essas características, muitos países abandonaram a imunização contra a tuberculose, como Alemanha, Espanha, França, Reino Unido e os países nórdicos. Outros nunca usaram extensivamente, como Austrália, Canadá, EUA, Itália e Nova Zelândia. Entre os países europeus que a aplicam, estão Portugal, Grécia, Irlanda, Rússia e todo o Leste Europeu, que apresentam poucas mortes por Covid-19 comparativamente.

Essa diferença de mortalidade ganhou mais atenção quando o sistema funerário do Equador colapsou muito antes de outros países da região chegarem ao pico de contágio. O país é o único latino americano que deixou de usar a BCG. A vacina é aplicada obrigatoriamente em toda a África e Ásia, mas no Irã, que teve alta letalidade pela doença no início da pandemia, foi adotada tardiamente em 1984.

“A comparação entre Portugal e Espanha é bastante sugestiva por serem países vizinhos, com pirâmide etária e níveis de qualidade de vida semelhantes, mas essas análises devem ser sempre muito cautelosas”, explica Santos. Variáveis como o acesso a serviços de saúde, qualidade de vida e prevalência de diabetes e pressão alta podem fazer muito mais diferença na quantidade de casos graves, avalia. “A capacidade de promover o distanciamento social no tempo adequado é o único fator comprovado para um bom desempenho no combate à doença.”

O estudo brasileiro observará os revacinados por 6 meses, mesmo tempo do experimento australiano. Se comprovada a eficácia, a BCG pode se tornar um trunfo das equipes de saúde em uma possível segunda onda da pandemia ou enquanto o mundo aguarda por uma vacina específica contra o novo coronavírus.
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Na imagem no alto, campanha de vacinação com BCG da Prefeitura de JUndiaí (SP). Fotógrafos PMJ.

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3 Comentários

  1. GELSON AMERICO DA SILVA said:

    Como estão os resultados da pesquisa?

    Um idoso de 79 anos saudável com hipertensão controlada, poderia tomar a BCG?

  2. Tatiana said:

    Na verdade não é um comentário, mas uma dúvida: por que a reaplicação da vacina em adultos não é eficaz para evitar a tuberculose? Também li um artigo divulgado hoje pela Lancet (sobre a BCG-Danish) dizendo que vacinas subsequentes podem alterar seu efeito. Seria essa a explicação? Gostaria de entender melhor. Obrigada.

    • Cínthia Leone said:

      Obrigada pela pergunta, Tatiana. Diferentes estudos foram conduzidos no mundo inteiro para verificar a eficácia da revacinação com BCG para prevenção da tuberculose. Os resultados apontam de maneira contundente para ineficácia da prática e por isso a OMS não recomenda a revacinação para prevenção da doença. Indico abaixo um estudo brasileiro sobre o tema publicado em 2005 na The Lancet como exemplo: encurtador.com.br/vKQR5 Em relação à interação da BCG com outras vacinas e sobre a ação protetiva dela em relação a outras doenças, a comunidade científica ainda tem muito mais perguntas do que respostas no momento. Nós, divulgadores científicos, estamos acompanhando com muita atenção. Um abraço!

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