Com Bolsonaro, desmatamento da Amazônia cresce 9,5% e é o maior em 12 anos

Taxa anual é quase três vezes maior que a meta de 3.925 km², estabelecida para 2020 pela Política Nacional de Mudança do Clima.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Terça-feira, 1º de dezembro de 2020, 7h00.

O governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deverá ter sérias dificuldades para conseguir convencer investidores e governos estrangeiros de que estaria se esforçando para combater o desmatamento da Amazônia. Divulgada ontem, segunda-feira (30/nov), pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a taxa de corte raso na floresta de 1º de agosto de 2019 a 31 de julho de 2020 foi de 11.088 km². O dado corresponde a uma alta de 9,5% em relação aos 10.129 km² do período anterior e é o maior em 12 anos.

A divulgação aconteceu durante visita oficial ao Inpe do vice-presidente da República, Hamilton Mourão – que também é o presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal (Cnal) – e do ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia e Inovações.

Destoando da liturgia dos anúncios da taxa anual nos últimos anos, não participou da apresentação o titular do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o ministro Ricardo Salles. Embora a pasta tenha a incumbência de combater o desmatamento, Mourão teve protagonismo nessa atribuição com o Cnal e a Operação Verde Brasil 2, deflagrada em 11 de maio deste ano para combater focos de incêndio, desmatamento e garimpo ilegal na região.

O período do dado divulgado é o primeiro do corte raso na Amazônia ocorrido inteiramente durante o governo Bolsonaro. A taxa anual anterior, de 2018-2019, abrangeu também os cinco últimos meses do governo de Michel Temer (MDB).

Nos estados, as maiores taxas de desmatamento foram do Pará, com 5.192 km² (46,8%), Mato Grosso, com 1.767 km² (15,9%), Amazonas, com 1.521 km² (13,7%), e Rondônia, com 1.259 km² (11,4%). Os quatro estados somaram 9.739 km² de corte raso, equivalentes a 87,8% do total da Amazônia Legal.

As taxas anuais de corte raso são apresentadas ao final de cada ano na forma de uma estimativa preliminar. A versão final, com os dados consolidados, tem sido divulgada ao final do primeiro semestre do ano seguinte.

 

Meta de clima

Além de ser um retrocesso com relação às políticas que no período de 2004 a 2011 resultaram em drástica redução no desmatamento na Amazônia a taxa anual divulgada ontem também é quase três vezes maior que a meta de de 3.925 km², estabelecida para 2020 pela Política Nacional de Mudança do Clima (lei 12.187 de 2009). Em nota divulgada ontem, o Observatório do Clima afirmou:

O país está 180% acima da meta, o que o põe numa posição de desvantagem para cumprir seu compromisso no Acordo de Paris (a NDC) a partir do início do ano que vem. Devido ao aumento do desmatamento, o Brasil deve ser o único grande emissor de gases de efeito estufa a ter aumento em suas emissões no ano em que a economia global parou por conta da pandemia.

Apesar de ter criticado anteriormente o monitoramento da Amazônia pelo Inpe, chegando a negar os dados de queimadas e desmatamentos, Mourão apoiou os dados do instituto durante a entrevista coletiva. “Graças ao trabalho feito pelo Inpe temos a noção perfeita de onde nós devemos priorizar nossas ações para impedir que as ilegalidades ocorram”, afirmou o vice-presidente (ver nota do MCTI).

Em novembro do ano passado, quando o governo anunciou a maior taxa anual de desmatamento da Amazônia havia 11 anos, o ministro Ricardo Salles lançou a ideia do “ambientalismo de resultados” para combater a devastação e promover o desenvolvimento da região. Dois dias depois, em uma reunião com os os governadores dos nove estados que integram a Amazônia Legal, o ministro usou a mesma ideia. Ontem, passado um ano,  o governo anunciou uma taxa de desmatamento da região ainda maior, e o ministro nem sequer deu as caras.

Para o Observatório do Clima, os números do desmatamento “simplesmente mostram que o plano de Jair Bolsonaro deu certo. Eles refletem o resultado de um projeto bem-sucedido de aniquilação da capacidade do Estado Brasileiro e dos órgãos de fiscalização de cuidar de nossas florestas e combater o crime na Amazônia. É o preço da ‘passagem da boiada’.”

 

Devastação total é maior

As taxas anuais de corte raso na Floresta Amazônica brasileira são produzidas desde 1989 pelo projeto Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Inpe, que é vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Desde o período 2008-2009, as taxas anuais de corte raso situaram-se abaixo dos 10 mil km². Esse patamar foi ultrapassado em 2018-2019, com a taxa de 10.129 km².

A devastação total da Floresta Amazônica é ainda maior do que mostram os dados do Prodes, que correspondem somente às superfícies onde houve eliminação total da cobertura vegetal por meio de corte raso. Eles não consideram áreas muito degradadas pela extração seletiva de madeira e também por incêndios ocorridos anteriormente, que até dezembro de foram monitoradas por outro projeto do Inpe, o Mapeamento da Degradação Florestal da Amazônia Brasileira (Degrad). Depois disso, a degradação pasou a se monitorada pelo sistema Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter).

O monitoramento da Floresta Amazônica pelo Degrad começou em 2007. Seus dados mais recentes apontaram que em 2016 essa devastação chegou a 27.370 km², uma área pouco menor que a do estado de Alagoas, mas quase o triplo do corte raso medido nesse ano (7.893 km²). Estudos recentes apresentaram resultados surpreendentes sobre esse tipo de devastação, como mostrará Direto da Ciência nos próximos dias.

O quadro abaixo mostra as taxas anuais e os desmatamentos por corte raso acumulados desde o início do Prodes, em dados consolidados.

Na imagem acima,o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, o vice-presidente Hamilton Mourão e o diretor do Inpe, Clezio De Nardin. Foto: YouTube/Reprodução.

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