Desigualdades de gênero na ciência brasileira – o quanto ainda precisamos avançar

O desenvolvimento do Brasil não poderá prescindir da capacidade feminina na ciência.

COALIZÃO CIÊNCIA E SOCIEDADE*
especial para Direto da Ciência.**
Segunda-feira, 8 de março de 2021, 7h00.

Editorial recente da revista científica Nature, em 3 de março, destaca como a pandemia de Covid-19 está amplificando a inadequação dos processos de avaliação na ciência. Destaca ainda que os sistemas de avaliação da produção científica devem considerar o impacto da pandemia especialmente para as pesquisadoras. Em 2020, a mesma revista conduziu um estudo com jovens cientistas e revelou uma geração preocupada com a continuidade de seus projetos, financiamentos e empregos. Os resultados também indicaram que as consequências da pandemia estão piorando as disparidades existentes entre gêneros, um velho e persistente problema na ciência.

A desigualdade de gênero na ciência brasileira é evidente tanto pela análise dos números como pelas consequências sentidas pelas mulheres que buscam a progressão na carreira científica.

Somos a maioria nas universidades brasileiras. Os dados do Censo da Educação Superior de 2018, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) , do Ministério da Educação (MEC), mostram que alunas representam 57% do total de matriculados em instituições de ensino superior no país. As pesquisadoras representam 53% do total de bolsistas de pós-graduação da Capes. Em 2017, mulheres receberam a maioria dos títulos em seis das nove grandes áreas de pós-graduação da Capes com destaque para a maior participação feminina na área de ciências da saúde (67%).

No entanto, o afunilamento da participação das mulheres na carreira científica no país é bem conhecido e documentado. O relatório “Education at Glance 2019”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indicou que mulheres brasileiras têm 34% mais probabilidade de se formar no ensino superior do que seus pares do sexo masculino, mas também menos chances de conseguir emprego.

No Brasil pré-pandemia, a docência foi uma das carreiras que mais contrataram mulheres em 2019, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. No entanto, enquanto as mulheres são maioria dos professores na educação básica e nos níveis fundamental e médio, o Censo da Educação Superior de 2018 indicou que somente 46% dos professores universitários são mulheres.

Os dados do Censo revelaram aspectos importantes do perfil das professoras universitárias. Em 2018, 34,07% das professoras estava entre 30 e 40 anos de idade, enquanto 20,7% estavam na faixa de 50-60 anos o que mostra um gradual avanço na comparação entre gerações. Tal avanço, entretanto, ainda conserva significativas desigualdades em termos étnicos e regionais.

Entre as respondentes do Censo da Educação Superior que declararam raça, 52,4% se declararam brancas, 15,63% negras, e apenas 0,1% indígenas. A distribuição regional foi bastante agregada com 43,1% das professoras universitárias no Sudeste, 21,5% no Nordeste, 19,4% no Sul, 9,2% no Centro-Oeste e 6,8% no Norte.

Um levantamento da Universidade de Leiden, na Holanda, divulgado em 2019 colocou três universidades brasileiras entre as dez instituições com maior taxa de participação de mulheres na produção de pesquisa científica. Apesar da expressiva contribuição científica, as mulheres são ainda minoria como bolsistas de produtividade do CNPq e em posições mais elevadas na carreira. A falta de apoio institucional e de um ambiente receptivo para as jovens pesquisadoras, muitas divididas entre os encargos da maternidade e da carreira, são frequentemente apontados com obstáculos significativos. Mesmo com avanços importantes como a manutenção de bolsa de pós-graduação durante a licença maternidade e a possibilidade de indicação desse período no currículo Lattes, as dificuldades de conciliar os primeiros anos de cuidado com os filhos com as demandas das atividades de pesquisa e orientação permanecem como barreiras à permanência de mulheres altamente qualificadas na carreira.

A pesquisadora Fernanda De Negri, do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea), no artigo “Women in Science in Brazil: still invisible?” escreveu que

talvez a falta de mulheres em cargos científicos superiores seja o resultado de uma questão mais profunda no país, causada pelos mesmos fatores que explicam porque os salários das mulheres são mais baixos ou porque há poucas mulheres nos conselhos de administração das empresas, ou mesmo em cargos governamentais de alto nível… Superar esta invisibilidade requer o compromisso de toda a sociedade.

O impacto da pandemia ainda será sentido nos próximos anos para as mulheres (docentes e discentes) que, neste momento, estão divididas entre o trabalho e o cuidado de filhos ou de familiares idosos. Em especial, será preciso ampliar o apoio às pesquisadoras nas fases iniciais da carreira que já sofrem um ônus desproporcional para consolidar suas carreiras. A contribuição de pesquisadoras brasileiras tem sido um marco no combate à Covid-19 e continuará sendo para a recuperação do país. O desenvolvimento do Brasil não poderá prescindir da capacidade feminina na ciência.

* A Coalizão Ciência e Sociedade congrega cientistas de instituições ensino e pesquisa em todas as regiões do Brasil.
Na imagem acima, foto: Kelly Sikkema/Unsplash..

** Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


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